Guilherme Felipe Valério, 93

Terena

Guilherme Felipe Valério, 93 anos, liderança indígena do povo Terena, uma das uma das maiores populações indígenas do Brasil. Falante da língua Aruak, Guilherme morava na aldeia Jaguapiru, no município sul-matogrossense de Dourados, desde1961.

Guilherme, que sempre participou de diversos movimentos de lutas dos povos indígenas, foi liderança respeitada em todo país. Importante defensor da educação, era ela a pessoa que reunia a comunidade e contava histórias da tradição. Em entrevista ao Dourados Agora, em 2015, ele lamenta e também nos deixa um apelo: “Nossa história está desaparecendo, se modificando. Tenho sobrinhos que moram em São Paulo, casados com brancos, e quase nem falam mais a língua terena”, reforçando a importância de manter viva a língua materna.

Pai de nove filhos e marido de Maurícia Mariano, contraiu o novo Coronavírus junto de sua esposa e outros três filhos. Morreu no dia 21 de agosto de 2020 e pode ser sepultado no cemitério da Terra Indígena.

 

Fórum permanente de cultura de Dourados (MS), registrou:

 


“É com muita tristeza que o Fórum permanente de cultura de Dourados compartilha a notícia do falecimento de Guilherme Felipe Valério, liderança indígena terena e Maurícia Mariano, sua esposa, vítimas do Covid-19. Ambos residiam na reserva indígena Jaguapiru de Dourados MS. Guilherme Felipe Valério faleceu no dia 21/08 aos 93 anos e Maurícia Mariano, faleceu no dia 22/08, aos 86 anos.

O Fórum permanente de cultura se solidariza com os familiares e com a comunidade de Jaguapiru pela perda irreparável para os povos indígenas do Mato Grosso do Sul.”

 

Carlene Rodrigues, registrou:

 

“Não tenho palavras para agradecer a sua bondade dia após dia, nos ensinando e sendo exemplo de pessoa com o coração enorme cheio do amor e sabedoria de Deus, desde a minha infância presenciei os teus ensinamentos sempre dizendo que Jesus está voltando, que temos que estar preparados para o lar celestial e agora, não vamos mais ouví-lo contar suas histórias reais o que passou para levar a palavra do Senhor, que se manteve firme, que deixou a sua terra, seu povo Terena e veio morar em um barraco no meio da mata e onças para falar do amor de Deus a nós, indígenas Guarani Kaiowá e Guarani Ñandeva.

Seu Guilherme Felipe Valério deixou o seu legado e muitos o ouviram, plantou a sementinha em nossos corações que possamos cultivá-la para estarmos todos juntos com ele, porque um dia iremos também! Que o espírito santo de Deus nos conforte e permaneça com cada um de nós que o conhecemos e tivemos o privilégio em ouvirmos o servo do Senhor!

Sentiremos muitas saudades de suas histórias, brincadeiras, de suas orações que sempre no final finalizavam com um amém firme e forte! seus cânticos, conselhos, puxões de orelha, nos alertando sempre sobre tudo, tudo havia de ser perfeito, pois dizia: – somos soldados de Cristo! Vamos obedecer o nosso comandante! E, a sua maior preocupação era a chegada do natal, os preparativos dos ensaios do coral, ensaios da peça do teatro, ensaios das crianças para as apresentações. Sentiremos muitas saudades do senhor em tudo, seus cumprimentos a todos na igreja em guarani “mbaeixapa”, em inglês “good morning”, em Terena “unaiti” e no final de cada culto sempre agradecia a nós indígenas kaiowá-guarani, falando em guarani: “Atimã Porã, Ñanderajá tae’nde rovasá”! Que quer dizer: “Muito obrigado, Deus te abençoe”!

Pois eu digo:
Atimã porã! Por tudo que tem nos ensinado, sabemos que estás nos braços do Pai.”

 

FONTES

Foto em Destaque: Vídeo da Prefeitura de Dourados nos 80 anos da cidade.
Fotos Galeria: Prefeitura de Dourados; Jornal o Progresso; Goretti Mattoso; Homero Torres; Ronildo Jorge Valério; “A origem do povo Terena”, mito contado pelo seu Guilherme, retirado do site do LABHEI; Ronildo Jorge Valério; Ronildo Jorge Valério; Página do Facebook Guateka Marçal de Souza; Carlene Rodrigues; Página do Facebook Beleza Indígena de Dourados; Ronildo Jorge Valério; Carlene Rodrigues; Aguilera de Souza; Aguilera de Souza; Aguilera de Souza.

Dourados Agora. Disponível em: https://www.douradosagora.com.br/noticias/dourados/lideranca-indigena-guilherme-morre-aos-93-anos-com-coronavirus. Acesso em 17 de outubro de 2020.

Fórum permanente de cultura de Dourados (MS)

https://www.facebook.com/fpcdms/photos/a.1421653724819365/2670601029924622

O Progresso
https://www.progresso.com.br/variedades/pets/educacao-e-o-futuro-dos-indios-diz-terena-radicado-em-dourados/97398/

https://www.progresso.com.br/variedades/bebes-e-criancas/poesia/289368/

Aguilera de Souza
https://bityli.com/k9h6r 
https://bityli.com/Z4aeU
https://bityli.com/n3YAL

Guateka Marçal de Souza
https://www.facebook.com/photo?fbid=1435834796605273&set=a.444978092357620 

Ronildo Felipe Valério

https://bityli.com/On7Xf

https://bityli.com/Kjw4T

https://bityli.com/Fq0SC

Beleza Indígena de Dourados
https://bityli.com/VNqtn

Carlene Rodrigues
https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=2683110568613164&id=100007427415931

 

Colaboração: Érica Dumont / Enfermagem e FIEI – FaE, UFMG – Belo Horizonte/MG.

 

Benedito Reginaldo Filho, 94

Terena

Seu Benedito Reginaldo Filho é mais um Terena vítima fatal da Covid-19. Seu filho Ageu Reginaldo relata que o pai esteve internado por dois dias no Hospital Regional de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Com a saúde debilitada pela infecção pelo novo coronavírus, não resistiu e faleceu aos 94 anos, no dia 3 de agosto de 2020. Seu Benedito Reginaldo nasceu em 1926 e era viúvo há pelo menos três décadas. Sua esposa deixou seis filhos desse matrimônio. Dos seis – quatro homens e duas mulheres –, quatro já haviam falecido ao longo do tempo, em diferentes momentos, após a partida da mãe.

Foram os dois filhos restantes, Ageu Reginaldo e Arão Reginaldo, que receberam a triste notícia da perda do pai para a Covid-19. Segundo Ageu, seu Benedito foi encaminhado para o hospital e, apesar de a internação não ter envolvido tantas burocracias, houve um grande descaso por parte da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) na prestação de apoio e auxílio ao povo Terena neste momento tão complexo e delicado da pandemia.

Seu Benedito foi um grande líder da família e um dos protagonistas na aceitação da evangelização e da implantação de igrejas evangélicas entre o povo Terena, motivo pelo qual enfrentou oposições internas. Promoveu a Igreja Evangélica da Aldeia Água Azul, fundada em 1928, primeira igreja na Terra Indígena Buriti. Essa TI está em uma região marcada por intensos conflitos fundiários com fazendeiros; no centro das disputas entre povos indígenas e ruralistas no Mato Grosso do Sul. O Estado brasileiro tem sido moroso na conclusão de seu reconhecimento formal: os conflitos chegaram ao ápice em 2013, com o assassinato de uma importante liderança dos Terena pela Polícia Federal, durante a reintegração de posse aos indígenas da fazenda Buriti. Já se vai uma década desde a publicação da sua Portaria Declaratória pelo Ministério da Justiça, reconhecendo a tradicionalidade da área, e dezesseis anos desde o relatório de identificação da FUNAI. A TI Buriti ainda não foi homologada.

Graziele Acçolini, etnóloga especialista na temática do povo Terena, registrou em um artigo que as religiões cristãs são predominantes na região. Sobretudo a religião protestante, em vertente pentecostal, possui importância notável no universo simbólico e religioso dos Terena, e se tornou elemento integrante daquela sociedade.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE), o estado do Mato Grosso do Sul abriga a segunda maior população indígenas do país. O site do Instituto Sociambiental (ISA) afirma que a população Terena é bastante numerosa:

“Com uma população estimada em 16 mil pessoas em 2001, os Terena, povo de língua Aruák, vivem atualmente em um território descontínuo, fragmentado em pequenas ‘ilhas’ cercadas por fazendas e espalhadas por sete municípios sul-matogrossenses: Miranda, Aquidauana, Anastácio, Dois Irmãos do Buriti, Sidrolândia, Nioaque e Rochedo. Também há famílias terena vivendo em Porto Murtinho (na TI Kadiweu), Dourados (TI Guarani) e no estado de São Paulo (TI Araribá). […] Os Terena, por contarem com uma população bastante numerosa e manterem um contato intenso com a população regional, são o povo indígena cuja presença no estado se revela de forma mais explícita, seja através das mulheres vendedoras nas ruas de Campo Grande ou das legiões de cortadores de cana-de-açúcar que periodicamente se deslocam às destilarias para changa, o trabalho temporário nas fazendas e usinas de açúcar e álcool.”

 

Ageu Reginaldo registrou um histórico em memória do legado de seu pai:

 

Queria fazer um pequeno relato da história do meu pai, Benedito Reginaldo Filho. Bom, esse nome “Reginaldo Filho”, foi uma herança do saudoso vovô Benedito Reginaldo, um tronco da família Reginaldo, que é uma família muito grande aqui na minha região. O meu pai desde pequeno, desde a infância, conheceu a Sagrada Escritura através do meu saudoso avô. De lá pra cá, meu pai veio seguindo esse caminho como cristão. Sempre foi uma pessoa muito humilde e simples. Não teve educação formal, mas sabia assinar o próprio nome.

Desde cedo percebia no meu pai um homem perseverante, que acreditava. Cheio de muita fé. Todas as coisas que ele fazia eram fundamentadas na fé em Deus: “Vamos orar?”, essa era uma frase dele. A oração era como chave da comunidade, como base de viver em sociedade. Ele sempre demonstrou ser um exemplo de vida, tanto na vida social como na espiritual. Um aprendizado que meu pai me deixou é que a nossa vida tem que ser valorizada. A nossa vida de luta. Meu pai foi um homem batalhador na vida espiritual e também na comunidade.

Mesmo já bem idoso, aos 94 anos, já fragilizado pela idade, demonstrava muita firmeza, fé. Acreditava em Deus conosco. Estava sempre nos motivando e não deixando a gente cair em desânimo. E são palavras que ficam na nossa memória. Sempre me espelhava nele, como um mestre, um companheiro, um amigo, um guerreiro… como o pai que era. Uma enciclopédia que foi embora de mim, de nossa família e comunidade. Um livro vivo da família.

Fazer homenagem pra ele é lembrar que meu pai foi esse fundador do evangelho, fundamentado também no trabalho. Foi uma grande perda pro povo Terena aqui da região. Um grande líder, um grande guerreiro. E o que posso fazer agora é cumprir o papel de orientar os meus filhos, as gerações que vêm aí, que são os netos, o fruto da geração de meu pai, seu Benedito Reginaldo Filho.

Que todos os povos indígenas, não só os Terena, os indígenas do nosso país, sejam valorizados através das memórias que construímos e guardamos dos nossos pais. Esse é um importante trabalho a ser feito para valorização daquilo que guardamos dos nossos ancestrais.

Nas redes sociais, Ageu Reginaldo declarou sobre a perda do pai:

Com muita dor no coração, meu herói, meu pai. Meu companheiro, meu mestre na vida secular e, principalmente, na vida espiritual. Partiu deste mundo. Descansa em paz, meu herói.

“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”.

Quero agradecer a todos os irmãos e amigos que me deram palavras de conforto neste momento de dor – estou consolado pelo Espírito Santo – pois sei que muitos irmãos estão orando a favor da minha família. Para o meu pai, Benedito Reginaldo filho, que descansou e está no lar eterno. Que Deus possa abençoar a cada um de vocês meus irmãos e amigos. ITUKO’OVITI huvo’oxovi.

 

 Fernando Souza, sobrinho de seu Benedito, sobre a perda:

 

Meus sentimentos a toda a sua família, Ageu. O tio cumpriu a sua missão nesta terra. Sei que a saudade será muita, que o Espírito Santo Consolador seja contigo e os demais irmãos e parentes.

 

Reginaldo Terena, neto de seu Benedito, declarou:

 

Mais uma vítima da Covid. Descanse em paz, vô Bilu. Benedito Reginaldo, grande servo de Deus. “Combati um bom combati acabei a carreira guardei a fé.”

Família Reginaldo, em luto.

 

Lisio, amigo da família, registrou:


Ageu e Arão, somente Itukooviti pode consolá-los neste momento de dor. Meus sentimentos.

 

Elis Amaral, neta de seu Benedito, declarou:


Nosso vovô, Benedito Reginaldo, terminou a carreira aqui na terra e agora descansa nos braços do Pai! Nosso abraço carinhoso ao Ageu Reginaldo, Arão Reginaldo e toda a família. Deus está no controle e tem o conforto nesse momento de dor.

Liderança indígena denuncia o descaso do Governo Federal com a saúde indígena entre os povos Terena (MS).

FONTES

Foto em Destaque: Acervo Pessoal da família de Benedito Reginaldo, cedido por Ageu Reginaldo.

Fotos na Galeria: Acervo Pessoal da família de Benedito Reginaldo, cedido por Ageu Reginaldo.

 

Acçolini, Graziele. Xamanismo E Protestantismo Entre Os Terena: Contemporaneidades”.In: Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 6, n. 1, p. 24-47, jan./jun. 2012. Disponível em:
https://seer.ufrgs.br/EspacoAmerindio/article/view/26916/18779

ISA- Instituto Socioambiental. Povos Indígenas do Brasil (PIB).
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Terena, acesso em 05/08/2020.

BRASIL, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os indígenas no censo demográfico 2010. Primeiras considerações com base no quesito cor ou raça. Disponível em https://indigenas.ibge.gov.br/images/indigenas/estudos/indigena_censo2010.pdf     acessado em 05/08/2020 

Reportagem de Racismo Ambiental. STJ mantém terra indígena Buriti, onde foi morto Oziel Terena, anulada por marco temporal.

https://racismoambiental.net.br/2018/03/13/stj-mantem-terra-indigena-buriti-onde-foi-morto-oziel-terena-anulada-por-marco-temporal/ acessado em 05/08/2020.

Atanazio Cabreira, 67

Terena

Biografia por Bianca Cegati Ozuna* – Jornalista//SOS Imprensa


A casa de “seu” Tanazinho, frequentemente é ponto de referência para quem explica algum endereço na aldeia Jaguapiru. Homem de fácil comunicação, respeitado, mas também muito brincalhão, o que o tornou um exemplo para os mais jovens da região. Pai de 12 filhos e avô de 46 netos, foi capitão da aldeia em outras épocas e depois se tornou pastor de uma igreja evangélica, da qual era presidente. Ainda assim, e, mesmo aposentado, encontrava tempo para trabalhar com o conserto de carros. Com orgulho, era mecânico. 

A breve biografia, que pouco – ou quase nada – foi contada pela imprensa local, é de Atanazio Cabreira, de 67 anos, morador da aldeia Jaguapiru, na Reserva Indígena Federal de Dourados, estado de Mato Grosso do Sul. Nas matérias sobre sua morte, “seu” Tanazinho, como era conhecido, foi retratado apenas pelo anônimo conjunto gênero-idade-numeral ordinal: homem, 67 anos, segunda vítima da covid-19 na Reserva. Foi necessário buscar em quatro sites locais de notícias para encontrar seu nome e qualquer outra informação não emitida em nota.
(…)

 “Uma referência para a vida toda, pois era trabalhador, honesto e muito querido por todos, realmente especial, sempre calmo e aberto ao diálogo. Me lembro de tantas coisas ótimas com ele, como quando eu era criança e andávamos de trator! Ele e uma criançada! Íamos buscar pasto para os animais. Era só alegria! E faz tanto tempo, eu tinha sete anos, mas nunca me esqueço”.

As recordações são de sua neta, a auxiliar em saúde bucal Edivania Cepre Cabreira, de 30 anos. Acometido pelas complicações da contaminação pelo novo coronavírus, o terena faleceu no Hospital Evangélico, em Dourados, no dia 26 de junho, após 21 dias de internação. (…)

(…) Quando, então, a notícia ultrapassa a zona urbana das cidades e tem foco nas comunidades marginalizadas, bastam tabelas cheias de números e porcentagens saídas de alguma secretaria para narrar essas vidas. E, assim, mesmo que inconscientemente, o jornalismo local, o que mais facilmente cai “na boca do povo”, comete o erro histórico de não mais contar histórias, principalmente quando se trata das trajetórias de populações esquecidas pelo poder público, como é o caso dos indígenas do Sul de Mato Grosso do Sul.

Em Dourados, segunda maior cidade do Estado, e a que comporta a mais populosa reserva indígena do Brasil, a população das aldeias sobrevive sem rostos. São 18 mil pessoas literalmente à margem da sociedade douradense, se somados os moradores das aldeias que compõem a Reserva Federal – Jaguapiru e Bororó – aos que vivem na aldeia Panambizinho e nas comunidades acampadas em terras retomadas.

Leia o texto completo: “Na Reserva Indígena Mais Populosa Do País, A Pandemia Não Tem Rosto, Apenas Números.”

 

FONTES

Foto em Destaque: Acervo pessoal de Edivânia Cabreira
Fotos da Galeria: Acervo pessoal de Edivânia Cabreira

 

Na reserva indígena mais populosa do País, a pandemia não tem rosto, apenas números