Ahkïto, 110.

Tukano

Texto escrito por Duhigó (Daiara Tukano), neta de seu Ahkïto.

 

Meu bisavô Erëmiri – João Sampaio – patriarca do clã Erëmiri Ahûsiro Paramera do povo Yepá Mahsã – Tukano, nasceu por volta de 1850 no rio Tiquiê, fronteira entre Brasil e Colômbia, muito jovem foi levado pelos comerciantes de borracha para os quais trabalhou por 30 anos remando pelas regiões de Barcelos até a Venezuela. Testemunhou um período difícil, em que o império da borracha promoveu o trabalho escravo indígena nos seringais e piaçabais, muitos parentes era seu levados pelos seringueiros a trabalhar em lugares distantes, enfrentando muita violência e morrendo de malária. Erëmiri foi resgatado pelas lideranças da Aldeia Esteio Igarapé no rio Tiquiê, no Distrito de Pari Cachoeira. Foi lá que nasceu meu avô Ahkïto, Casimiro Lobo Sampaio dia 26 de julho de 1910.

Os seringalistas estimulavam os conflitos políticos entre os povos da região, manipulando os clãs maiores para que estes vendessem pessoas dos clãs menores ao trabalho escravo da borracha. Diante desses conflitos, Erëmiri e Ahkïto saíram de Esteio Igarapé para fundar em 1927 a aldeia São Francisco, no rio Tiquié e se organizar contra o tráfico de escravos e o assédio das missões.

O ciclo da borracha, conhecido como “Belle époque amazônica” entre 1890 a 1920, fez de Manaus uma cidade Governada por magnatas cuja fortuna era regada à sangue da escravidão indígena. O desenvolvimento econômico provocado pela revolução industrial impulsionou o comercio da borracha na região amazônica que supria 40% da demanda mundial.

1910 foi o mesmo ano da fundação do Serviço de Proteção ao Índio SPI pelo marechal Rondon e da criação da Prefeitura apostólica do Rio Negro, que foi confiada em 1914 pela Santa Sé à Ordem Salesiana para o projeto expansionista da igreja católica na Amazônia como projeto “civilizatório”.
O código civil de 1916 proclamou os índios relativamente incapazes. No mesmo ano foi fundada a missão salesiana de São Gabriel da Cachoeira, marcando o inicio do processo de aldeamento das populações indígenas ao redor das igrejas, que foram construídas estrategicamente nos lugares sagrados de encontros tradicionais milenares dos povos da região.

A ordem Salesiana proibiu as Malokas, casas comunais, onde eram praticadas as cerimonias tradicionais de dabacuri e jurupari, que foram consideradas por eles como espaços insalubres e pecaminosos “casas do diabo”. As malokas foram derrubadas e as famílias foram divididas em pequenos casebres ao redor das igrejas e dos internatos.

Os religiosos católicos perseguiram os pajés, proibiam as cerimonias tradicionais e retiravam ou destruíam os objetos sagrados. Erëmiri foi defensor das tradições e preferiu jogar seu colar de pedra e demais objetos de cerimônia no rio em vez de entregá-los aos salesianos.

A missão salesiana ajudou a combater o regime de escravidão e as violências praticadas pelos gestores do SPI na época, até hoje lembrados por crimes hediondos, como o português Manduca, que dirigiu uma prisão onde indígenas “revoltosos” ou “fugitivos” eram acorrentados nas pedras, torturados, e as mulheres colocadas em fileira para ser estupradas à beira do rio. Manduca foi expulso pelos missionários que instalaram próximo ao posto do SPI o internato de Taracuá encima da pegada do gigante, um dos sítios mais sagrados de nosso povo.

Os internatos gigantescos construídos com mão de obra indígena ofereciam ensino elementar até a 4a série. As crianças eram levadas aos internatos em regime fechado a partir dos seis anos de idade para receber educação básica, aprender a ler e escrever, fazer cálculo. Ensinar marcenaria e construção aos meninos e Costura e fazeres domésticos às meninas. As línguas indígenas eram proibidas sob pena de punição severa. Doenças como gripe, malária, catapora e tuberculose eram frequentes e as crianças maiores eram responsáveis por enterrar aqueles que não sobreviviam longe de suas famílias.

Como jovem liderança tradicional, Ahkïto foi convidado aos quinze anos de idade para trabalhar para os missionários: visitando as comunidades a remo e ajudando no diálogo e na tradução. Erëmiri falava bem português e língua geral, mas não sabia ler e escrever, por isso pediu ao seu filho Ahkïto que estudasse na missão salesiana de Pari Cachoeira que foi fundada em 1938.

Ahkïto foi aluno da segunda turma de Pari Cachoeira, seus professores eram europeus, espanhóis, franceses e italianos, ex-militares ou sobreviventes e fugitivos da primeira guerra mundial, que chegaram na Amazônia como missionários para exorcizar seus próprios demônios mas acabaram demonizando e combatendo as culturas indígenas da região. Casimiro foi um dos melhores alunos, um grande leitor, escritor, como intelectual aprendeu os cantos e cerimonias tradicionais, tornando-se militante defensor da cultura Tukano.

Casou-se com minha avó Diakarapó – Guilhermina Sampaio, de família tradicional Desana, por quem foi muito apaixonado e com quem muitos filhos e filhas.

Meu pai Doéthiro – Alvaro Sampaio nasceu em 1953 na Aldeia São Francisco, desde pequeno foi educado no conhecimento tradicional pessoalmente por seu avô Erëmiri, e quando completou doze anos foi levado por seu pai Ahkïto para estudar no internato de Pari Cachoeira. Seguiu a veia intelectual da família, sendo um dos melhores alunos, tornando-se professor e inclusive sendo convidado a ser seminarista. Ao completar a maioridade prestou serviço militar trabalhando como ajudante da enfermaria e testemunhou as violências sofridas pela população indígena da região. Ao terminar seu serviço decidiu estudar medicina e recebeu apoio para viajar ao Maranhão para realizar seu sonho.

Saindo da região do Rio Negro entendeu que o genocídio dos povos indígenas era uma realidade em toda a região amazônica e no Brasil. Tornou-se militante na defesa dos direitos indígenas, estimulado por seu pai Ahkïto a defender nossos povos e culturas tradicionais. Por isso em 1980 foi ao tribunal internacional Bertrand Russel em Rotterdam, unto com seu companheiro Mário Juruna para denunciar a Igreja Católica e a Missão Salesiana pelo crime de genocídio e etnocídio cultural dos povos do Alto Rio Negro. Doéthiro se apresentou como testemunha no processo que julgou a missão Salesiana culpada, criando grande constrangimento internacional. O tribunal de Rotterdam resultou na retirada do apoio financeiro da Santa Sé aos internatos salesianos, que foram transformados em escolas comuns.

A denuncia sobre as violações aos direitos humanos dos povos indígenas causou grandes conflitos políticos no Rio Negro, em particular contra nossas famílias que foram ameaçadas, difamadas e perseguidas pelos padres que impediram meus tios de prosseguir com seus estudos.

Ahkïto decidiu sair da aldeia São Francisco e fundou junto com Doéthiro a aldeia Balaio em 1975, próxima ao município de São Gabriel da Cachoeira, para reorganizar um recomeço para revalorizar as tradições que foram combatidas pelos missionários.

Durante a década de 1980 Ahkïto participou ativamente de todas as reuniões que resultaram na criação das organizações indígenas do Alto Rio Negro. Doéthiro se dedicou à articular a formação do movimento indígena brasileiro, participando ativamente das reuniões de lideranças indígenas, sendo um dos primeiros presidentes da União das Nações Indígenas e coordenando junto com lideranças de outros povos a construção dos direitos indígenas promulgados pela constituinte de 1988.

Doéthiro permaneceu em Brasília desde a constituinte lutando pela demarcação da Terra Indígena Balaio que foi homologada em 2009, som a orientação de seu pai Ahkïto deu continuidade aos estudos dos conhecimentos tradicionais, escrevendo juntos a história de nosso Clã e de nosso povo.

Ahkïto, Kumu, rezador e Bayá, mestre de cerimônia, grande musico, intelectual, historiador educou seus filhos e netos para se tornarem professores, mestres de saberes e defensores dos direitos indígenas e de nossas tradições. Testemunhou a criação e o fim dos internatos salesianos, a primeira e segunda guerra mundial, a ditadura militar e os crimes do SPI, participou da criação do movimento indígena no Rio Negro e acompanhou o processo constituinte. Colaborou com muitos pesquisadores e universidades para manter viva a cultura do povo Yepá Mahsã inspirando gerações.

Extremamente lúcido aos 110 anos ainda ensinava seus filhos sobre as historias antigas da criação do povo Yepá Mahsã Tukano, cantava, rezava, tocava cariçu, dava conselho e contava piada.

Como curandeiro salvou muitas vidas. Conhecedor das rezas e das plantas medicinais enfrentou a primeira onda de Covid19 aos 110 anos de idade, rezando e curando muitas pessoas de sua comunidade.

Ahkïto faleceu de Covid19 dia 6 de novembro de 2020 as 16h na aldeia que fundou. Partiu deixando um legado de amor, humildade, dignidade, dedicação e defesa da liberdade. Nos confiou a missão de reconstruir as Malokas e manter vivas as tradições.

Seu espírito pegou a canoa até a Maloka do céu para se encontrar com seu pai Erëmiri, sua esposa Diakarapó e demais familiares. O céu esta em festa recebendo Ahkïto num grande dabacuri.

É com enorme sentimento de gratidão à vida e memória de meu avô que compartilho um pouco da historia de nossa família, para que as gerações seguintes possamos continuar reunidas seguindo a cultivar os sonhos de nossos avôs e sigamos remando na canoa da transformação.

Añû.

FONTES

Foto em Destaque: Arquivo pessoal de Daiara Tukano.

Fotos da Galeria: Instituto Socioambiental (ISA); (IDEM); (IDEM); (IDEM); Daiara Tukano; (IDEM); (IDEM); (IDEM); (IDEM).

Homenagem publicada em Carta Capital
https://www.cartacapital.com.br/opiniao/ahkito-vida-e-luta-de-um-mestre-yepa-mahsa/

Colaboração: Felipe Milanez – Jornalista, UFBA  (Salvador/ BA).

Gerson Souza Melo, 58

Pataxó Hãhãhãe

Biografia construída por Jurema Machado, professora do Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e presidente do conselho diretor da Associação Nacional de Ação Indigenista (Anaí)*

 

Uma das mais longas e árduas lutas territoriais dos povos indígenas no Brasil, a retomada da terra Indígena Caramuru Paraguaçu, na Bahia, perdeu um de seus maiores líderes, Gerson Souza Melo, vítima da Covid-19. A tragédia chega a um momento onde a epidemia está falsamente controlada no Brasil, mas ainda não somente muito mortal, como provocando impactos profundos nos povos indígenas. Gerson Pataxó deixa um legado de luta que entra para a história.

O que constitui um grande líder indígena? A sua capacidade de entrega na luta? O conhecimento detido da cultura, da tradição e do território? A preocupação com o registro da história do seu povo? A articulação com outros povos e outras lutas? Pois Gerson Pataxó tinha todas estas características, e mais a permanência constante junto a seu povo e o acompanhamento incessante dos acontecimentos que ocorrem cotidianamente em suas comunidades.

Certos acontecimentos, que muitas vezes possam passar despercebidos, e serem, supostamente, de âmbito estritamente doméstico, podem provocar alterações profundas na vida dos povos. Um líder precisa ser vigilante. E foi em uma dessas situações, em mais de 20 anos de relação com os povos indígenas, que conheci Gerson Souza Melo, em maio de 1999, na sede do Ministério Público Federal, na cidade de Ilhéus, sul da Bahia. Meses antes, Gerson se encontrava muito atento às transformações que a saúde indígena vinha sofrendo com a “Lei Arouca” (nº 9.836/99), e promoveu, junto a outras lideranças do povo Pataxó Hãhãhãi, um diagnóstico de saúde das três aldeias (Caramuru, Bahetá e Panelão), que então compunham partes da Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu. Em função desse diagnóstico, Gerson e a comunidade tiveram dimensão da grande quantidade de mulheres esterilizadas nas comunidades, e a partir daí teve início um processo que trouxe alterações profundas na organização sócio política do povo Pataxó Hãhãhãi e reorientou a luta pelo território.

Esse nosso primeiro encontro na sede do MPF ocorreu em função dos depoimentos de algumas das mulheres esterilizadas no contexto de campanha política. Eu ambicionava pesquisar o ocorrido para a monografia de conclusão do meu bacharelado em Ciências Sociais, na Universidade Federal da Bahia. Como um grande líder, Gerson reconheceu que aquele meu interesse poderia fortalecer as denúncias e passamos dois dias conversando e combinando como poderia ocorrer a pesquisa. Ele era muito entusiasta das pesquisas e pesquisadores, incentivava e apoiava que os parentes muito estudassem e se tornassem cientistas, professores, médicos e historiadores do seu povo. Certa vez, permaneceu dias no Museu do Índio, no Rio de Janeiro, selecionando e lendo documentos do então Serviço de Proteção aos Índios sobre a Reserva Caramuru-Catarina Paraguaçu, interesse que despertou à equipe do Museu a publicação de um livro com textos analíticos sobre a documentação e resumos de todos os documentos. Era mais uma importante peça conquistada para comprovar o direito de seu povo à terra que reivindicava.

Gerson era do povo Pataxó Hãhãhãi, mas seu troco velho, sua etnia, como ele mesmo enfatizava, era Kariri-sapuyá. Família pela qual tinha muito orgulho e engendrava esforços para unir e registrar a trajetória, desde Pedra Branca, no Recôncavo da Bahia, até a Reserva Caramuru-Paraguaçu, conduzida pelo etnólogo Curt Nimuendaju, lá pelos idos de 1937.  Seu respeito pelos mais velhos e pela luta e persistência ancestral garantiram a ele a “voz da tradição”, qualidade que os Pataxó Hãhãhãi costumam referir a quem “sabe contar as histórias”, a quem “escutou os mais velhos”. Foi Gerson Souza Melo e sua prima, Ilza Rodrigues, hoje também cacique, que esforçaram-se para me fazer compreender o que seria a organização social que utiliza etnônimo englobante (Pataxó Hãhãhãi), mas que aciona a ênfase em etnias (Tupinambá, Gueren, Kariri-Sapuyá, Kamacã, Hãhãhãi, Baenã) por famílias ou famílias por etnias para marcar ações de luta – como as retomadas.

Olympio Serra certa vez fez uma analogia ao equivalente ocidental, sobre o papel desempenhado por Gerson junto ao seu povo, que seria algo como “primeiro-ministro”, ou alguém que está dentro e está fora, também, no papel de representação. Papel esse que obteve justo reconhecimento externo ao ser homenageado com o Prêmio de Direitos Humanos, ainda no ano 2000. A dor sentida por estar em Brasília, na companhia do primo Galdino Jesus dos Santos, quando este foi assassinado, em 1997, queimado vivo em Brasília, acentuou seu senso de justiça e pressão sobre o Estado Brasileiro. Ele por vezes narrava sobre os tensos encontros com o presidente Fernando Henrique Cardoso, que sempre fazia certas ironias com as lideranças indígenas, sugerindo que cada líder só estaria interessado na demarcação de seu território. Certa vez, Gerson escutou dele “você só quer a demarcação dos Pataxó?”, no que ele retrucou, “o senhor precisa respeitar os índios do Brasil”.

“Eu vi a luta desde pequeno”, dizia ele. Desses tempos de pequeno guardava na memória, a reunião dos parentes na casa de seus pais, ambos já falecidos, Egídia Trajano e Diogo Souza Melo, estrategicamente escolhida para ser o local de encontro do Grupo Luta pela Terra, criado em 1974, quando Gerson tinha ainda 12 anos de idade. Cresceu, também, tendo muita consciência que a luta dos índios é possível e resistente porque dela participa um conjunto de seres encantados, humanos e não humanos. Não deixava de referir ao tio, irmão de Egídia, que envultava, aparecia e sumia, como uma forma de confundir o inimigo. Da sua convivência e parentesco com outros líderes mais velhos, a exemplo de Samado Santos e Desidério dos Santos, foi crescendo e entendendo a história que carregava e que ajudaria a construir.

O povo Pataxó Hãhãhãi muito se orgulha que sua luta para recuperar o território não tenha beneficiado apenas os indígenas. A cidade de Pau Brasil, por exemplo, uma das quais está localizada a terra indígena, foi fortemente impactada positivamente com a conquista dos índios, sua economia cresceu, o comércio prosperou e as relações interétnicas foram apaziguadas. Apesar do forte sentimento anti-indígena que predominou por décadas no município, os indígenas sempre pensaram em Pau Brasil como um lugar de circulação e presença deles, também, e talvez por isso tenham se preocupado, desde o final dos anos 1980, com a política local e como ela poderia lhes afetar. A criação do Partido dos Trabalhadores naquela cidade foi protagonizada pelos Pataxó Hãhãhãi, e nele fizeram vereadores, a exemplo do próprio Gerson.

A violência e perseguição imposta pelos inimigos lhe rendeu uma vida marcada pelas ameaças de assassinato e criminalização. Ele conseguiu escapar de dois cercos de pistoleiros que atiraram contra o carro em que se encontrava, e sobreviveu também a um sequestro orquestrado pelos mesmos inimigos, que lhe ofereciam terras e gado em troca da sua saída da luta e liderança do povo Pataxó Hãhãhãi.

Em novembro de 1999, em viagem de retorno a aldeia, após participarem de uma sessão especial na Assembleia Legislativa da Bahia, em Salvador, Gerson e suas primas, Ilza Rodrigues e Margarida Rocha, foram surpreendidos com a interrupção da viagem no posto da Polícia Rodoviária Federal, em Itabuna. Lá estavam policiais militares do 150 Batalhão que prenderam Gerson, sob mandado do juiz da Comarca de Pau Brasil, Antônio Cândido Garcia de Oliveira. A acusação que pesava sobre ele era a de uma suposta tentativa de homicídio a um fazendeiro, em 1994. Surpreendentemente, ao interpor mandado para o pedido de Habeas Corpus, a FUNAI se deu conta de que o pedido fora expedido às 7:15 da manhã, enquanto a prisão havia sido efetuada às 6:00. O MPF conseguiu que Gerson permanecesse custodiado pela Polícia Federal, em Ilhéus, mas nem ele, e nem eu, nos recordamos de quantos dias ficou encarcerado. Talvez quatro ou cinco dias. Após essa, ele enfrentou ainda outras tentativas de criminalização de sua luta.

Mas, em contexto de genocídio, os indígenas que conseguem sobreviver aos conflitos, podem não sobreviver aos impactos de uma nova doença e ao descaso com a saúde indígena por parte de um governo racista e por si só, adoecedor. Gerson, que nasceu em 12 de janeiro de 1962, cresceu em Pau Brasil vendo a terra do seu povo invadida, mas acompanhando a determinação de seus mais velhos em reavê-las. Ele, que lutou o bom combate para sua reconquista e pôde comemorar a expulsão de cada invasor e algoz da sua terra, não resistiu aos efeitos da Covid, uma pandemia que no Brasil se fortalece com contornos mais sofisticados de descaso e crueldade.

Nesses mais de 20 anos de amizade e relação, falamos em medos, expectativas, certezas, tristezas e muitos planos, mas nunca falamos em morte. Muito embora sempre fosse uma certeza, obviamente, especialmente quando víamos a partida de tantos mais velhos, achávamos que a dele, e a minha, não seria para tão cedo. Desses seus muitos planos, estava a construção de um memorial indígena no Caramuru, que abrigasse tanto os documentos e objetos de memória do povo Pataxó Hãhãhãi, bem como, as duas urnas funerárias que foram retiradas para estudo, do sítio arqueológico Água Vermelha, uma das regiões da terra indígena Caramuru-Paraguaçu.

Gerson foi a primeira liderança indígena que me aproximei, e foi em casa sua, de Selma — sua esposa — e de seus quatro filhos — e agora sete netos — que, em julho de 1999, vivenciei a minha primeira experiência de trabalho de campo. Eles têm uma importância imensa na minha formação como antropóloga e como pessoa, pois mais da metade da minha vida é de conhecimento com eles.

No dia de sua morte, 15 de outubro de 2020, muito impactada pela surpresa do acontecimento e avassaladora tristeza, escutei de uma amiga a sugestão que colocasse a tristeza para fora escrevendo um conto que entrelaçasse a casa de Gerson como um lugar de potência para mim, e a casa de Egídia com o um lugar de potência para os Pataxó Hãhãhãi. Não sei se sou capaz disso, mas quero registrar aqui o quanto uma casa é abrigo. Gerson morreu de forma muito precoce, mas agora estará sempre em casa, como preconizaram seus antepassados.

* Publicado originalmente em “Pensar la Pandemia – Observatorio Social del Coronavirus”. Artículo enviado por el Grupo de Trabajo CLACSO Ecologías políticas desde el Sur/Abya Yala.

Vejam um pequeno vídeo do cortejo fúnebre: https://www.facebook.com/wagner.galo.5/videos/371994974154000

FONTES

Foto em Destaque: Reprodução//Arquivo Pessoal (Via Jurema Machado)

Fotos da Galeria: Reprodução//Arquivo Pessoal (Via Jurema Machado); (IDEM); (IDEM); Reprodução//Arquivo Pessoal (Via Página Facebook Gerson Pataxó); Reprodução//Arquivo Pessoal (Via Jurema Machado); (IDEM); Urbino Brito (Via Reprodução//Facebook de Valmir Assunção Lula da Silva); Antonio Cruz (Via EBC); Reprodução// Facebook de Olinda Yawar Muniz Wanderley; Antonio Cruz (Via EBC); Reprodução//Facebook de Luiz Carlos Lula Suíca; Reprodução//Facebook de Cláudio Magalhães Tupinambá; Antonio Cruz (Via EBC); Reprodução//Facebook de Josivaldo Dias; Reprodução//Facebook de Jurema Machado; Pintura de Arissana Pataxó.

CLACSO
https://www.clacso.org/gerson-souza-melo-cacique-dos-pataxo-hahahai-morre-por-covid-19/ 

Reprodução//Arquivo Pessoal (Via Página Facebook Gerson Pataxó)

https://www.facebook.com/gersonpataxo/photos/133687387079037

Urbino Brito (Via Reprodução//Facebook de Valmir Assunção Lula da Silva)

https://bityli.com/lJOph

Antonio Cruz (Via EBC)

http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/galeria/2003-02-14/14-de-fevereiro-de-2003

Reprodução// Facebook de Olinda Yawar Muniz Wanderley

https://bityli.com/liPh9

Reprodução//Facebook de Luiz Carlos Lula Suíca

https://bityli.com/37bVY

Reprodução//Facebook de Cláudio Magalhães Tupinambá

https://bityli.com/k1FdV

Reprodução//Facebook de Josivaldo Dias

https://bityli.com/rcyuz

Colaboração: Felipe Milanez  (Jornalista, UFBA – Salvador/ BA)

Raimundo Suruí, 54

Suruí Paiter

Raimundo Suruí, 54 anos, pertencente ao povo indígena Paiter Suruí. Vivia junto de seu povo Paiter, que significa “gente de verdade, nós mesmos”, na Terra Indígena (TI) Sete de Setembro, banhada pela bacia do rio Branco, Rondônia. Atuava como Agente Indígena de Saúde (AIS) da aldeia Lapetanha, em uma das três Unidades destinadas ao cuidado em saúde na TI.

Raimundo faleceu em agosto de 2020, mesmo mês em que também faleceram seus parentes Iabibi Suruí, Renato Suruí e Fábio Suruí. Integrantes do Distrito Sanitário Especial Indígena reforçaram o quanto Raimundo foi “um guerreiro” e “importante membro” para sua comunidade.

FONTES

Foto em Destaque: O Rondoniense
Fostos da Galeria: O Rondoniense; Reprodução//Facebook Página “Os Paiter Suruí”; Reprodução//Facebook Página “Associação Metareilá”.

O Rondoniense

Disponível em: https://orondoniense.com.br/mais-um-indigena-da-etnia-paiter-surui-morre-por-covid-19/. Acesso em: 17 de outubro de 2020.

Os Paiter Suruí

https://www.facebook.com/OsPaiterSurui/posts/815554928982787 

https://www.facebook.com/OsPaiterSurui/photos/a.498931783978438/815772918960988

https://www.facebook.com/OsPaiterSurui/photos/a.498931783978438/815773012294312

Associação Metareilá
https://www.facebook.com/paitersurui/posts/3404476932951041 

 

Colaboração: Érica Dumont / Enfermagem e FIEI – FaE, UFMG – Belo Horizonte/MG.

Guilherme Felipe Valério, 93

Terena

Guilherme Felipe Valério, 93 anos, liderança indígena do povo Terena, uma das uma das maiores populações indígenas do Brasil. Falante da língua Aruak, Guilherme morava na aldeia Jaguapiru, no município sul-matogrossense de Dourados, desde1961.

Guilherme, que sempre participou de diversos movimentos de lutas dos povos indígenas, foi liderança respeitada em todo país. Importante defensor da educação, era ela a pessoa que reunia a comunidade e contava histórias da tradição. Em entrevista ao Dourados Agora, em 2015, ele lamenta e também nos deixa um apelo: “Nossa história está desaparecendo, se modificando. Tenho sobrinhos que moram em São Paulo, casados com brancos, e quase nem falam mais a língua terena”, reforçando a importância de manter viva a língua materna.

Pai de nove filhos e marido de Maurícia Mariano, contraiu o novo Coronavírus junto de sua esposa e outros três filhos. Morreu no dia 21 de agosto de 2020 e pode ser sepultado no cemitério da Terra Indígena.

 

Fórum permanente de cultura de Dourados (MS), registrou:

 


“É com muita tristeza que o Fórum permanente de cultura de Dourados compartilha a notícia do falecimento de Guilherme Felipe Valério, liderança indígena terena e Maurícia Mariano, sua esposa, vítimas do Covid-19. Ambos residiam na reserva indígena Jaguapiru de Dourados MS. Guilherme Felipe Valério faleceu no dia 21/08 aos 93 anos e Maurícia Mariano, faleceu no dia 22/08, aos 86 anos.

O Fórum permanente de cultura se solidariza com os familiares e com a comunidade de Jaguapiru pela perda irreparável para os povos indígenas do Mato Grosso do Sul.”

 

Carlene Rodrigues, registrou:

 

“Não tenho palavras para agradecer a sua bondade dia após dia, nos ensinando e sendo exemplo de pessoa com o coração enorme cheio do amor e sabedoria de Deus, desde a minha infância presenciei os teus ensinamentos sempre dizendo que Jesus está voltando, que temos que estar preparados para o lar celestial e agora, não vamos mais ouví-lo contar suas histórias reais o que passou para levar a palavra do Senhor, que se manteve firme, que deixou a sua terra, seu povo Terena e veio morar em um barraco no meio da mata e onças para falar do amor de Deus a nós, indígenas Guarani Kaiowá e Guarani Ñandeva.

Seu Guilherme Felipe Valério deixou o seu legado e muitos o ouviram, plantou a sementinha em nossos corações que possamos cultivá-la para estarmos todos juntos com ele, porque um dia iremos também! Que o espírito santo de Deus nos conforte e permaneça com cada um de nós que o conhecemos e tivemos o privilégio em ouvirmos o servo do Senhor!

Sentiremos muitas saudades de suas histórias, brincadeiras, de suas orações que sempre no final finalizavam com um amém firme e forte! seus cânticos, conselhos, puxões de orelha, nos alertando sempre sobre tudo, tudo havia de ser perfeito, pois dizia: – somos soldados de Cristo! Vamos obedecer o nosso comandante! E, a sua maior preocupação era a chegada do natal, os preparativos dos ensaios do coral, ensaios da peça do teatro, ensaios das crianças para as apresentações. Sentiremos muitas saudades do senhor em tudo, seus cumprimentos a todos na igreja em guarani “mbaeixapa”, em inglês “good morning”, em Terena “unaiti” e no final de cada culto sempre agradecia a nós indígenas kaiowá-guarani, falando em guarani: “Atimã Porã, Ñanderajá tae’nde rovasá”! Que quer dizer: “Muito obrigado, Deus te abençoe”!

Pois eu digo:
Atimã porã! Por tudo que tem nos ensinado, sabemos que estás nos braços do Pai.”

 

FONTES

Foto em Destaque: Vídeo da Prefeitura de Dourados nos 80 anos da cidade.
Fotos Galeria: Prefeitura de Dourados; Jornal o Progresso; Goretti Mattoso; Homero Torres; Ronildo Jorge Valério; “A origem do povo Terena”, mito contado pelo seu Guilherme, retirado do site do LABHEI; Ronildo Jorge Valério; Ronildo Jorge Valério; Página do Facebook Guateka Marçal de Souza; Carlene Rodrigues; Página do Facebook Beleza Indígena de Dourados; Ronildo Jorge Valério; Carlene Rodrigues; Aguilera de Souza; Aguilera de Souza; Aguilera de Souza.

Dourados Agora. Disponível em: https://www.douradosagora.com.br/noticias/dourados/lideranca-indigena-guilherme-morre-aos-93-anos-com-coronavirus. Acesso em 17 de outubro de 2020.

Fórum permanente de cultura de Dourados (MS)

https://www.facebook.com/fpcdms/photos/a.1421653724819365/2670601029924622

O Progresso
https://www.progresso.com.br/variedades/pets/educacao-e-o-futuro-dos-indios-diz-terena-radicado-em-dourados/97398/

https://www.progresso.com.br/variedades/bebes-e-criancas/poesia/289368/

Aguilera de Souza
https://bityli.com/k9h6r 
https://bityli.com/Z4aeU
https://bityli.com/n3YAL

Guateka Marçal de Souza
https://www.facebook.com/photo?fbid=1435834796605273&set=a.444978092357620 

Ronildo Felipe Valério

https://bityli.com/On7Xf

https://bityli.com/Kjw4T

https://bityli.com/Fq0SC

Beleza Indígena de Dourados
https://bityli.com/VNqtn

Carlene Rodrigues
https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=2683110568613164&id=100007427415931

 

Colaboração: Érica Dumont / Enfermagem e FIEI – FaE, UFMG – Belo Horizonte/MG.

 

Amado Menezes Filho, 64

Sateré-Mawé

Amado Menezes Filho, 64 anos, Tuxaua-Geral dos Sateré-Mawé faleceu no dia 15 de outubro de 2020, na cidade de Parintins-AM, vítima da COVID-19 e da negligência governamental com a saúde indígena. 

Um dos fundadores da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia brasileira e grande liderança dos Sateré-Mawé, Amado, segundo a COIAB, lutou durante toda vida pelos direitos indígenas, articulando movimentos, impedindo invasões de territórios, perdas de direitos e sendo voz ativa para seu povo. Durante a pandemia, não parou de se engajar pela resistência, denunciando a retirada de equipes sanitárias pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) em TI’s, como apresentado pela Amazônia Real, e o descaso enfrentado por seu povo na falta de medidas reais para contenção do vírus que, infelizmente, o atingiu.  

O povo Sateré-Mawé, que integra o tronco lingüístico Tupi e habita principalmente a região do médio Rio Amazonas, é um dos 158 povos indígenas afetados pela pandemia. Com Amado, já se contabilizam 7 óbitos ocasionados pelo vírus no povo, segundo o Comitê Nacional de Vida e Memória Indígena. À ele, que lutou até o fim por sua terra e seu povo, permanecem as inúmeras resistências, não só ao vírus que se espalha, mas também contra as inúmeras negligências e contravenções que alagam o governo brasileiro. 

 

Em memória de Amado e em sentimento à sua família e ao povo Sateré-Mawé.

 

 

FONTES

Foto em Destaque: Danilo Melo/Foto Amazonas/Amazônia Real
Foto da Galeria: Danilo Melo; 

 

Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB)

https://coiab.org.br/conteudo/nota-de-pesar—amado-menezes-filho-1602877781019×100448009069264900?fbclid=IwAR2FHU31LrThI-ngiLzG-6CGycB_QQ0m2Q4clO_c3XdASVQPqH8lmFQwBFE

 

Amazônia Real 

https://amazoniareal.com.br/povo-satere-mawe-perde-sua-maior-lideranca-o-tuxaua-geral-amado-menezes-16-10-2020/

Comitê Nacional de Vida e Memória Indígena

https://emergenciaindigena.apiboficial.org/dados_covid19/

Povos Indígenas no Brasil

https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Sater%C3%A9_Maw%C3%A9

 

Colaboração:  Letícia Silva e Pires, graduanda em Ciências Sociais (UFMG).

Domingas Damásio, 84

Tupinambá

Uma homenagem de Amanayara Tupinambá (Juliana Santana)* 

 

“Olivença é minha terra, Tupinambá é minha nação!

O maracá é o instrumento, instrumento da união”.

Com pesar o povo Tupinambá perde mais uma memória viva, Dona Domingas Damásio encantou e nos deixa e a memória do quão foi uma mulher guerreira.

Como entoamos no canto Tupinambá: “Olivença é minha terra, Tupinambá é minha nação”, ela foi uma das protagonistas da luta pelo reconhecimento étnico do seu povo, no momento em que deixamos a nomenclatura caboclos de Olivença para trás e afirmamos a nossa nação Tupinambá.

Junto com seu esposo, seu Pedro Braz (in memoria, Maio/ 2018), cedeu um espaço do seu terreno para a construção do maior patrimônio do povo Tupinambá: o Colégio estadual Indígena Tupinambá de Olivença.

Mãe, esposa, avó, agricultura e guerreira, Dona Domingas nos deixou um grande legado, o legado de luta pela demarcação da Terra Indígena Tupinambá e resistência do ser Tupinambá. Vítima desse novo inimigo invisível, o COVID 19, o seu corpo que nasceu da terra voltou para ela. A semente que nasceu, e semeou bons frutos, está e seguirá no nosso instrumento de união, o maracá. Sempre que balançarmos o maracá e entoarmos os nossos cantos, Dona domingas estará presente.

 

*Homenagem escrita com a colaboração com Érica Dumont.

 

Nathalie Pavelic, doutora em “Cultura e Sociedade” pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), registrou nas redes sociais:


Hoje chegou a triste notícia do falecimento de mais um anciã Tupinambá por Covid-19. Em junho passado foi embora seu Pedro. Hoje, foi o dia de Dona Domingas Damásio partir da comunidade Sapucaeira (TI Tupinambá de Olivença).

Desde o início das articulações para o reconhecimento do povo Tupinambá, ela sempre lutou junto com seu esposo, o lembrado Pedro Braz – que já se foi em maio de 2018 – e sua filha, a professora Pedrísia para que crianças e adultos da região tivessem acesso à educação formal e depois, à educação escolar indígena. A família cedeu o local da própria casa da família para que a Escola Estadual Indígena Tupinambá de Olivença fosse construída em 2005.

Em uma das fotos, ela aparece sentada no banco da frente da casa dela, junto com seu esposo, seu Pedro e sua filha, a professora Pedrísia. Tomamos a foto em fevereiro de 2018 com Zeno Tupinambá quando estávamos elaborando o mapa das escolas indígenas da TI.

As três outras fotos que dona Domingas nos mostrou muito gentilmente,  são reprodução de algumas fotos do arquivo pessoal da família, tomadas por Susana Matos Viegas. 

Guardarei na memória os momentos que tive a oportunidade de passar na companhia dela, as conversas e os almoços.

Muita força para Pedrísia, família e para os Tupinambá de Olivença.

Que possam descansar em paz.

 

POR HAROLDO HELENO, NATHALIE LE BOULER PAVELIC, DANIELA FERNANDES ALARCON E PATRÍCIA NAVARRO COUTO (CIMI)*


Mais uma estrela de brilho maior se apaga no céu luminoso do povo Tupinambá, no sul da Bahia. Dona Domingas Damásio agora pertence ao panteão de lutadores no mundo dos antepassados e encantados, de onde continuará mobilizada junto aos Tupinambá. Ela morreu no dia 5 de agosto, vítima da Covid-19. Guerreira que resistiu a numerosos ataques, foi retirada de seu povo em meio à necropolítica do governo federal, que tem atingido fortemente as “bibliotecas vivas” de coletividades indígenas de todo o país. Também em consequência da Covid-19, em 17 de maio, os Tupinambá já haviam perdido seu Pedro Alcântara, ancião que vivia na localidade do Acuípe do Meio.

Sempre muito presente na luta pela recuperação do território tupinambá, dona Domingas atuava ao lado de seu companheiro, também batalhador, seu Pedro Braz, falecido em maio de 2018. Juntos, eles construíram na região da Sapucaieira, onde viviam em um sítio com membros de sua família extensa, um espaço de mobilização, articulando-se com outras famílias indígenas em defesa dos direitos tupinambá. Dona Domingas vivenciou na infância a toma das terras de sua família. Ela era sobrinha-neta de Marcellino José Alves, que, nas décadas de 1920 e 1930, mobilizou-se junto a outros companheiros para tentar barrar o avanço não indígena no território tupinambá. Após ter sido preso seguidas vezes, em 1937 ele desapareceu.

No início dos anos 1980, o sítio de dona Domingas e seu Pedro se tornou ponto de referência para as atividades da Pastoral da Criança na região, atraindo parentes para a pesagem das crianças e outros encontros. As ações desenvolvidas ao longo das décadas de 1980 e 1990 junto à Pastoral e a organizações relacionadas à educação popular e a outras frentes de luta por direitos, como veremos adiante, possibilitariam a ativação de uma rede ampliada de parentes.

Ao lado de dona Nivalda Amaral (que, a partir de Olivença, impulsava as atividades da Pastoral), Núbia Batista (professora envolvida em iniciativas de educação popular) e Valdelice Amaral (que seria a primeira cacica do povo Tupinambá), a professora Pedrísia Damásio de Oliveira, filha de dona Domingas e seu Pedro, tornou-se à época uma das figuras mais proeminentes da mobilização tupinambá. As movimentações desencadeadas então levariam, no começo dos anos 2000, à demanda em face do Estado brasileiro por reconhecimento dos direitos territoriais dos Tupinambá.

Iniciado em 2004, o procedimento de demarcação da Terra Indígena Tupinambá de Olivença (que se estende por partes dos municípios de Buerarema, Ilhéus, São José da Vitória e Una) ainda não foi concluído, violando-se todos os prazos legais. Em dezembro de 2019, o então ministro da Justiça Sérgio Moro devolveu à Fundação Nacional do Índio (Funai) os processos de demarcação de 17 áreas, incluindo a Terra Indígena Tupinambá de Olivença, medida que só viria a público no final de janeiro de 2020, com a publicação de reportagem pela Folha de S.Paulo.

No quadro da pandemia, a ausência de regularização fundiária aumenta a vulnerabilidade dos Tupinambá, elevando os riscos de contaminação. De acordo com o último boletim Covid-19 Monitoramento entre Povos e Terras Indígenas na Bahia, publicado em 7 de agosto pela Associação Nacional de Ação Indigenista (Anaí) e pelo Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoiba), já se contabilizam entre os Tupinambá 92 contágios acumulados. E há ainda 31 pessoas sintomáticas à espera do resultado dos testes. Ainda segundo o boletim, os casos se espalham por diversas aldeias.

 

A trajetória de dona Domingas


Dona Domingas nasceu na década de 1930 na Serra das Trempes, no território tupinambá. Devido ao parentesco direto com  Marcellino, sua família foi vítima de perseguições recorrentes. Uma notícia publicada pelo Diário da Tarde em 7 de novembro de 1929 (reproduzida pela antropóloga Susana Viegas em seu livro Terra calada: os Tupinambá na Mata Atlântica do Sul da Bahia, de 2007) informa a prisão de Marcellino e cinco parentes, incluindo o avô e o pai de dona Domingas.

“Conforme noticiamos ontem, em longa reportagem, foram presos juntamente ao famigerado Caboclo Marcellino, um irmão e 4 sobrinhos deste, coniventes do ‘homem-bugre’ nas suas últimas tropelias dos campos de Cururupe. A polícia, depois de ouvir os comparsas de Caboclo Marcellino, cuja culpa única era a de darem sua solidariedade às façanhas daquele seu parente e chefe, resolveu mandá-los em paz, com as devidas recomendações e conselhos. Foram cinco ao todo: Antonio Damasio [avô de dona Domingas], irmão de Marcellino, e que, surpreendido pelos sitiantes, foi apontar a casa do caboclo, e João Damasio, Antonio Damasio Filho [pai de dona Domingas], Custodio e Lio Damasio, todos filhos de Antonio e sobrinhos do ‘homem-bugre’” (português atualizado).

Em entrevista de 2002, dona Nivalda — anciã falecida em 2018, que, como vimos, teve papel destacado já no início da luta — descreveu a violência sofrida por um de seus familiares, também parente de dona Domingas, que teve as unhas arrancadas por policiais das volantes que estavam no encalço de Marcellino. Ela se lembrava de estar na soleira da porta quando o tio se aproximou com os dedos cheios de sangue, depois que “o soldado tirou as unhas dele todas”, com um sabre, “no cru”. As torturas infligidas a indígenas para que denunciassem Marcellino e seus companheiros povoam até hoje a memória dos Tupinambá. Na perspectiva partilhada pelo povo, tais perseguições se atualizam no presente, expressando, sob o atual governo e no contexto da pandemia, um caráter genocida.

Ainda na infância, dona Domingas se mudou com os pais para a região da Sapucaieira, onde eles adquiriram um sítio. Ela se recordava do trabalho na roça, ajudando os pais a plantar milho e mandioca. Pequena, perdeu o pai. Com isso, sua mãe, Maria, e seu irmão mais velho, Luiz, passaram a ser assediados por não indígenas que tencionavam tomar as terras da família. “Meu pai morreu, o juiz chegou e me levou para Olivença. Me criei em Olivença [entregue a uma família não indígena]”, rememorou dona Domingas em depoimento inédito de 2018. “Juntaram-se os mais sabidos”, observou seu Pedro na ocasião, “tiraram [de Maria] os meninos de menor, que eram ela [dona Domingas], Ailton (o caçulo) e Iracy. Tiraram para fora, chegaram e tocaram a velha, a mãe deles, e venderam o lugar”.

Em entrevista concedida em 2006 e reproduzida por José Carlos Tupinambá em sua dissertação de mestrado (“O que nós queremos é uma escola com o cheiro do nativo”: os modos de apropriação da escola pelos Tupinambá de Olivença, 2019), seu Pedro se referiu aos sofrimentos de dona Domingas em decorrência do esbulho: “Tiraram tudo dela; o branco que tirou. Depois que o pai dela morreu, tiraram sua força e seu sustento, a terra. Ela sofreu muito, sofreu na mão de fazendeiro trabalhando pesado em farinhada”. Anos após ser afastada da família, dona Domingas conseguiu retornar a Sapucaieira, onde viveu até o fim da vida. Com o primeiro companheiro, teve seis filhos, e, com seu Pedro, Pedrísia.


A construção de um projeto contemporâneo de educação escolar indígena entre os Tupinambá tem raízes profundas e conectadas à luta pela terra, remetendo à mobilização de dona Domingas, seu Pedro e outros indígenas

 

A primeira escola Tupinambá

Além de seu envolvimento na luta pela terra, dona Domingas assumiu papel central na mobilização pelo direito à educação escolar indígena. Ainda no início dos anos 2000, ela e seu Pedro cederam parte de seu sítio, onde ficava a antiga casa da família, para a construção da Escola Estadual Indígena Tupinambá de Olivença (EEITO), hoje Colégio Estadual Indígena Tupinambá de Olivença (CEITO). Criada em 2002, a escola teria sua sede inaugurada em 2006, na área cedida. Até que as obras fossem concluídas, as aulas aconteciam em uma sala improvisada na antiga casa de farinha do casal.

Em referência às mobilizações para a garantia da educação escolar indígena, seu Pedro assinalou, em depoimento concedido em 2018: “esse direito indígena nasceu aqui”. Muitos consideram Sapucaeira o “centro da aldeia”, tanto em função de sua situação geográfica e de seu papel histórico como zona de refúgio, como por concentrar algumas das primeiras articulações para o reconhecimento étnico dos Tupinambá e a demarcação da terra indígena.

Desde meados da década de 1980 Pedrísia estava envolvida em iniciativas de educação popular, em particular, de alfabetização e educação de jovens e adultos. Em 1992, junto a Núbia e outras professoras, passou a atuar no Coletivo de Educadores Populares da Região Cacaueira (Caporec). As atividades desenvolvidas pela organização e outras ações do período criaram oportunidade para que histórias de vida fossem compartilhadas e a memória social, atualizada, aos poucos reacendendo o ímpeto para a recuperação territorial. Nos anos de 1998 e 1999, Pedrísia, Núbia e outras educadoras organizaram reuniões e visitas a mais de vinte localidades tupinambá para ouvir os mais velhos a respeito da história de seu povo.

Dona Domingas detinha muitos conhecimentos transmitidos por seus antepassados, que partilhou com os parentes no seio da luta — dos trabalhos na roça à casa de farinha, do cuidado com os bebês à costura, da devoção à Bandeira do Divino Espírito Santo aos remédios de mato. Um depoimento concedido por ela em 2010 e reproduzido por José Carlos Tupinambá dá mostra de seus saberes.

“Antigamente, os índios mais velhos iam para o pé de buraem [também conhecido como buranhém]. De manhã cedinho, quando o sol ia saindo, eles tiravam a casca para fazer xarope, para asma, bronquite, gastrite, úlcera, fígado, rins e também para fazer tintura para cicatrizar ferimentos. Eles falavam que iam tirar de manhã cedo porque assim o sol levava junto dele a doença da pessoa, e tinha que saber a quadra da lua para não aumentar o problema; para sarar de alguma doença, o remédio tinha que ser feito na lua minguante, porque assim a doença ia sumindo igual à lua.”

A Terra Indígena Tupinambá de Olivença conta hoje com cinco colégios estaduais e seus mais de trinta anexos, todos oriundos da EEITO. A construção de um projeto contemporâneo de educação escolar indígena entre os Tupinambá tem raízes profundas e conectadas à luta pela terra, remetendo à mobilização de dona Domingas, seu Pedro e outros indígenas. A preocupação desses anciões com a educação de seus descendentes e com o futuro do seu povo criou condições para que jovens tupinambá de diferentes aldeias acessassem o ensino superior, inclusive a pós-graduação.

 

“Agora que encantou, dona Domingas continuará a guiar com seu brilho, desde outro domínio, a luta do povo Tupinambá”

 

“Dona Domingas estará presente”

Desde que circulou a notícia da morte de dona Domingas, vieram a público testemunhos de parentes para quem sua memória é cara. Recordando-a, o professor Erlon Tupinambá, mestre profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais pela Universidade de Brasília (UnB) e vice-diretor da EEITO entre 2009 e 2014, afirmou: “Hoje partiu Dona Domingas, anciã que doou parte de seu terreno para a construção de uma escola, das lembranças que ficam, será a de uma guerreira de palavras certeiras, sabia se posicionar, devota do Divino e elo fundamental na teia da demarcação. Dona Domingas pouco frequentava a escola que ajudou a construir mesmo sendo a vizinha mais próxima, contudo o seu fogão sempre esteve a postos para alimentar quem fome tivesse. Sua chegada na CEITO tinha dia marcado, era a pedido dela que todas as crianças eram enroladas na Bandeira, em certa ocasião disse: Façam sempre isso, se não aprendem em casa, aprendem na Escola”.

Amanayara Tupinambá (Juliana Santana), jovem liderança e professora, mestranda em Antropologia Social na UnB, também prestou a dona Domingas sua homenagem, repercutida pela Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme): “‘Olivença é minha terra, Tupinambá é minha nação! O maracá é o instrumento, instrumento da união.’ Com pesar o povo Tupinambá perde mais uma memória viva, Dona Domingas Damásio encantou e nos deixa em memória o quão foi uma mulher guerreira. Como entoamos no canto Tupinambá, Olivença é minha terra, Tupinambá é minha nação, essa luta pelo reconhecimento étnico do seu povo, ela foi uma das protagonista, esse momento de deixar a nomenclatura caboclos de Olivença e afirmar a sua nação Tupinambá”.

“Junto com seu esposo seu Pedro Braz (in memoriam) cedeu um espaço do seu terreno para a construção do maior patrimônio do povo Tupinambá, o Colégio Estadual Indígena Tupinambá de Olivença. Mãe, esposa, avó, agricultura, guerreira, nos deixou um grande legado, legado de luta pela demarcação da TI Tupinambá e resistência do ser Tupinambá. Vítima desse novo inimigo invisível, o COVID-19, o seu corpo que nasceu da terra voltou para ela. A semente que nasceu, e semeou bons frutos, está no nosso instrumento de união, sempre que balançarmos o maracá e entoarmos os nossos cantos, Dona Domingas estará presente”.

Agora que encantou, dona Domingas continuará a guiar com seu brilho, desde outro domínio, a luta do povo Tupinambá. Seguirá ao lado de Marcellino, Antonio Damásio e filhos, seu Pedro, dona Nivalda e outros guerreiros, que continuarão animando os que aqui ficam a romper com as estruturas estabelecidas, possibilitando a insurgência e a rebeldia contra todo tipo de opressão imposta aos Tupinambá e a todos os povos.

 

* Haroldo Heleno é educador popular e coordenador do Cimi Regional Leste. Nathalie Pavelic é doutora em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em cotutela (Antropologia) com a Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS, França). Daniela Alarcon é doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ). Patrícia Navarro é mestre em Antropologia pela UFBA e professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). As três têm longa experiência de pesquisa junto aos Tupinambá.

 

FONTES

Foto em Destaque: Reprdução//Arquivo Pessoal de Juliana Santana (Amanayara Tupinambá)

Fotos na Galeria: Nathalie Le Bouler Pavelic; As três fotos mais antigas são do arquivo pessoal da família e a autoria é de Susana Matos Viegas.

Conselho indigenista Missionário (CIMI – Regional Leste)
https://cimi.org.br/2020/08/dona-domingas-damasio-ancia-tupinamba-morre-vitima-covid-19/

Juliana Santana (Amanayara Tupinambá)
https://www.facebook.com/juh.amanayara/posts/3284639274948743

Nathalie Pavelic
https://www.facebook.com/nathalie.pavelic/posts/10158862220977052

Aritana Yawalapiti, 71

Yawalapiti

Biografia registrada por Felipe Milanez, antropólogo e jornalista, em memória de Aritana Yawalapíti:

 

Do Xingu veio o pedido para que se silenciem as flautas, tirem-se os adornos do corpo, dispam-se das pinturas, pois é hora de recolhimento, choro, tristeza e luto. Nesta quarta-feira 5, faleceu o cacique Aritana Yawalapíti, aos 71 anos, por Covid-19. Ele estava internado havia duas semanas em um hospital particular em Goiânia.

Em uma belíssima reportagem da revista Realidade, de 1966, o repórter descreve o seu fascínio com o Alto Xingu ao começar o texto com o seguinte lead: “o paraíso amanheceu mais uma vez em paz”. Hoje, em meio a uma tragédia humanitária provocada pela pandemia da Covid-19, em meio a um violento processo de genocídio levado a cabo pelo governo federal, esse paraíso amanheceu triste e em luto.

O paraíso que fascinou o mundo em inúmeras reportagens, documentários, programas de tevê, desde que foi demarcado, em 1961, está cada vez mais ameaçado de desaparecer — literalmente de ser varrido do mapa por correntões e agrotóxicos que acompanham a boiada do apocalipse passando, secando seus rios e matando seus anciãos e anciãs.

Aritana era o grande cacique do Alto Xingu. Diplomata, elegante e generoso chefe. Líder político e espiritual. Campeão de huka huka — e, posteriormente, o grande treinador de huka huka. Chefe da aldeia que tinha o nome de um pequeno rio que a banhava, o Tuatuari, de águas cristalinas, areias brancas, farto de peixes, lindíssimo. Um grande conhecedor da história do mundo, de seu povo, dos cantos, de todo o universo de uma língua que está em risco de extinção: “A perda do meu tio Aritana é a perda de 98% da nossa língua. Significa para a gente muitos desmontes”, declarou sua sobrinha Watatakalu para a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB).

Aritana descendia de uma sofisticada ancestralidade xinguana: herdou o nome de seu avô e era filho do cacique Parú, que quando jovem se chamava Kanato (falecido em 2001), e de Tepori, do povo Kamayurá (falecida em fevereiro de 2020). A mãe, Tepori, era irmã dos poderosos pajés kamayurá Sapaim (falecido em 2017) e Takumã (falecido em 2014), ambos tios, portanto, de Aritana. Seu irmão Pirakuman foi também um grande líder do Xingu e faleceu em 2015, aos 60 anos. Mataryua, outro cacique e irmão, havia recém falecido, em 24 de junho, por Covid-19, com apenas 40 anos de idade. São nomes que remetem a uma categoria especial de grandes chefes, pajés, guerreiros e guerreiras que defenderam o universo xinguano diante da invasão dos brancos na segunda metade do século passado. Toda essa constelação de grandes pessoas fez a passagem para o mundo espiritual nos últimos anos, num período muito curto, agora acelerado pela Covid-19 e o genocídio.

O ano de 2020 está sendo devastador. E, cada vez mais, fica explícito e atordoante o efeito epistemicida que acompanha as mortes decorrentes do genocídio. Aritana não morreu de Covid-19, ele foi assassinado por Covid-19, como muitos outros anciãos e anciãs indígenas. O Xingu já perdeu para a Covid-19 Mamy, elegante e poderoso chefe Kalapalo da aldeia Kuluene; Jamiko, cacique do povo Nafukuá, que veio a falecer na enfermaria do Posto Leonardo, sem oxigênio; e o ancião, também campeão de huka huka, Juca Kamayurá.

Aritana estava consciente dos riscos terríveis da epidemia, e ele havia cancelado o kuarup que ocorreria em homenagem à sua mãe, Tepori, em agosto — uma decisão extremamente difícil, que levou muito tempo de meditação e reflexão, quando se aconselhou com diversas pessoas e amigos médicos sanitaristas. Essa decisão de Aritana, tomada em junho, influenciou todos os outros caciques xinguanos a também suspender as festas que promoveriam o encontro de diferentes aldeias, aglomerações e risco de disseminação do novo coronavírus. Serviu de alerta da gravidade a todos os seus parentes, que respeitaram e acolheram a decisão em suas próprias comunidades.

Suas decisões costumavam ser seguidas pelos outros chefes; era sempre ouvido como a voz de maior relevância na tomada de decisões políticas que atingissem o Parque do Xingu, em meio ao mosaico de união de povos que é o Alto Xingu. Ali convivem 11 povos indígenas (Aweti, Kalapalo, Kamayurá, Kuikuro, Matipu, Mehinako, Nahukuá, Naruvotu, Trumai, Wauja e Yawalapíti) que falam cada um uma língua própria, de quatro troncos e famílias diferentes (Tupi, Aruák, Karib e Trumai, uma língua isolada) — fora os povos do tronco Macro-Jê, como os Mebengokrê-Kayapo, Kisedjê e Tapayuna, que vivem na porção norte do Parque.

Aritana falava dez línguas, todas dos troncos Tupi, Karib e Aruák, além de falar também português. Junto das línguas, entendia o costume, a cultura, a cosmologia de cada povo; sabia como se colocar, como dialogar de maneira exemplar conforme a educação xinguana. “Era muito querido por outras etnias do Xingu, por isso era também cacique, o Cacique do Xingu!” declarou sua filha/sobrinha (pois filha de seu falecido irmão Pirakuman), Watatakalu Yawalapíti. “Estamos sem chão, a nossa perda é irreparável.”

Para Watatakalu, a mensagem que Aritana deixa é de amar o seu povo: “Nunca esquecer a luta dele. Manter a cultura para termos a nossa identidade. Manter o nosso território protegido para que o nosso povo tenha um futuro. Sejamos dignos com as pessoas que cuidamos. Descanse em paz meu tio querido. Homens com grandes histórias nunca morrem.”

Aritana deixa 10 filhos, sendo o mais velho Tapi, seu sucessor, e duas esposas. Tapi está com sintomas de Covid-19 e em algumas mensagens de áudio reportou sentir-se mal — o que tem provocado ainda mais temor entre amigos e apoiadores dos povos do Xingu.

Deixa uma comunidade devastada pelo luto, sofrendo, em paralelo ao genocídio, a morte do conhecimento, o epistemicídio. De um povo que quase desapareceu após uma grande epidemia de sarampo nos anos 1950, restam apenas três pessoas fluentes na língua Yawalapíti.
(…)

Luto até o Kuarup

Eu tive a oportunidade de estar diversas ocasiões com Aritana, mas duas delas foram extremamente marcantes: duas cerimonias de kuarup que aconteceram na sua aldeia Tuatuari, e foram por ele regidas. O Kuarup de 2014, em que fui com minha companheira, Maíra Kubík Mano, a convite de Pirakuman, e, de forma muito triste, o Kuarup realizado em homenagem a seu irmão Pirakuman,falecido em 2015, e que ocorreu em 2016, a convite da família. E deixo aqui a minha experiência de ter sido conduzido ao mundo espiritual dos Yawalapiti por Aritana. E espero, até que os xinguanos possam realizar o Kuarup, para novamente ouvir o tocar das flautas entrando nas belíssimas casas da aldeia Tuatuari, que certamente irá ecoar para bem longe, por todos os ouvidos dos inúmeros amigos de Aritana pelo mundo.

Eu via Aritana coordenar todo o ritual, com alguns gestos, algumas palavras, e olhares. Sempre falava suave, e fazia pouco esforço para ser compreendido. Todos sabiam que ele estava entre os dois mundos: o mundo dos mortos que iriam receber o espirito que estava ali aguardando a passagem, e o mundo dos vivos que chorava em desespero a partida da pessoa querida. Nesse momento de muito sofrimento e dor, Aritana era um pilar que estruturava o mundo dos vivos em luto — parecia conseguir segurar o céu e prender o chão para não despencar. Ele tinha a calma que só os grandes xamãs possuem, aquela calma que nos acalma quando chegamos perto dessas entidades.

E vi Aritana, em 2016, quando saí da casa da família de Pirakuman para o pátio da aldeia, levar as ultimas palavras para o espírito de seu irmão que estava na fogueira. É uma cena mágica, com o amanhecer esfumaçado das brumas do Xingu, o silêncio da aurora, o frio dos nevoeiros. Aritana estava sozinho — ele conseguia ficar só mesmo entre centenas de pessoas. Eu choro quando me lembro.

Aritana acompanhava a chama do fogo que se apagava junto com a passagem do espírito de seu irmão. Tive a sensação de um vento em um vácuo após a partida do espírito, como se a aldeia fosse tomada por um tornado que levasse a energia para o cosmos. E hoje, lembrar que o corpo sem vida está ainda acompanhado do espírito de Aritana entre nós é de uma tristeza profunda, e que será sentida até o próximo Kuarup, até que a chama do fogo no centro da aldeia apague, e seu espírito possa ir para o universo sagrado junto da divindade criadora do mundo, Mavutsinim, e lá encontrar seu irmão e a ancestralidade. E que seja o ritual tão lindo, e tão belo, como sempre foi, sendo agora conduzido por essa geração que tem a difícil responsabilidade de reconstruir um mundo devastado pelo genocídio para que seus povos tenham futuro, para que seja retomada a existência.

 

Ler a Biografia completa escrita por Felipe Milanez, aqui.

 

A seguir, reproduzimos algumas outras manifestações que vêm sendo registradas nas redes sociais após a morte de Aritana

 

Watatakalu, sobrinha:

 

Que os jovens que respeitam a memória de Aritana continuem respeitando a luta dele. Que mantenham essa luta viva. E que não façam o contrário de tudo aquilo que ele lutou.

 

Anna Terra Yawalapiti, sobrinha:

 

Agora vocês dois cuidarão de todos nós, aonde quer que estejam. 

Estou sem chão sem sentir nada. 

Minha alma e meu corpo estão adormecidos de tanta dor e tristeza.

Descanse em paz tio Aritana.

 

Associação Yamurikumã das Mulheres Xinguanas:


Luto.

Perdemos o grande cacique do Xingu, diplomata, generoso, nobre Aritana Yawalapiti, faleceu aos 71 anos, em decorrência advindas de complicações da Covid-19.

Agradecemos imensamente o tempo que pudemos conviver com ele, pelo conselhos valiosos, ensinamentos, pelo seu apoio a associação Yamurikumã, pela presença nas assembleias, sempre encorajando para não desistimos das nossas lutas, falava sobre a união, que unidas seríamos mais fortes.

A cada encontro com ele nos encorajava para continuarmos persistindo em algo que acreditamos ser o correto, acreditar que podemos sim fazer diferença, porque estávamos fazendo algo novo no Xingu. Ele dizia que nossa associação tinha que ser independente, dizia: vocês mulheres são mais organizadas e não dependam de ninguém para realizar os trabalhos.

Devemos lembrar que na cultura alto xinguana existe um lugar para onde vamos após a morte (aldeia das almas), portanto ele está lá agora, com seus pais, irmãos, primos e os caciques que se foram.

Neste momento de dor pedimos a Mavutsinin que dê conforto ao povo Yawalapiti, à família para que possam enfrentar esta imensurável dor com serenidade.

O tempo que pudemos conviver com ele será sempre lembrado em nossos corações.

 

 

Adelino Mendez, Antropólogo e pesquisador (HCTE-UFRJ), registrou:

 

Adelino, você vê aquela estrela? Ela é a estrela do agricultor, ela nos mostra quando devemos iniciar o plantio. (Aritana Yawalapiti)

Assim ele me ensinou e contou a história do seu povo.

Meu Deus…que dor!

Você está voltando para casa.

Uma vez me disse que não se importava em morrer, desde que estivesse em suas terras.

 

O Tywatywaturi espera seu líder. Eu estarei sempre com você. Te amo irmão.

 

O maior dos Aritanas.

A voz doce, o rosto largo, os gestos contidos. Durante a noite, por mais silenciosa que seja nos confins do cerrado, andava com a leveza dos felinos, na grande casa nada se escutava. Era ele, o amulaw, liderança moldada na dureza dos ensinamentos de seu pai, Kanato, o qual o prendeu por 5 anos no “quarto” de reclusão, onde exilado do cotidiano e dos estímulos da aldeia, foi moldado para seguir a etiqueta xinguana, transformando-se no maior líder da história recente do Alto Xingu.

Dos méritos de lutador da arte marcial xinguana, a huka-huka, guarda o mais importante, o de jamais ter perdido uma luta.

Homem digno, imenso, de uma solidariedade imensurável, de palavras conciliadoras, como é próprio dos grandes líderes do Alto Xingu.

Avô carinhoso, pai presente, rígido e amoroso. Amigo formidável.

Foi, sem dúvida alguma, o maior dos Aritanas.

Awiriruru meu grande amigo.

 

Antonio Carlos Ferreira Banavita, fotógrafo, registrou:


Aritana, grande lider xinguano, vencedor de muitas batalhas em defesa da sua cultura, do seu povo, do seu território. Hoje foi vencido por um inimigo invisível. O Xingu está triste. Parece que por um instante tudo parou. O rio parou de correr, os pássaros emudeceram, as árvores ficam imóveis como em uma fotografia. Tudo parou. O coração de todos parou. Parou a respiração, mas como a sua cultura, os seus ensinamentos, os rituais, seguirão. Sua memória será sempre respeitada e sua luta ficará para as novas gerações. O seu legado de vida segue no Xingu e no coração de todos os povos.

 

Clarissa Beretz, jornalista:

 

Aritana foi o primeiro cacique do Alto Xingu. Foi nomeado aos 14 anos pelos irmãos Villas-Bôas, assim que o Parque Indígena do Xingu foi criado, em 1961. Ele ficou recluso por 5 anos para se preparar para ser cacique, assim me contou. Até uma novela, em 1978, adotou seu nome, inspirada nos povos xinguanos. A morte de Aritana, hoje, 05/08, representa o fim de uma era. Aos 71 anos, ele foi um dos últimos da geração que caçava de borduna e pescava de arco e flecha, em barco sem motor. Só ele e mais duas pessoas na aldeia Yawalapiti falavam a língua pura nativa, Yawalapiti – povo que beirou a extinção, não tivesse procriado com povos xinguanos vizinhos.

Tive a honra de ser apresentada ao alto Xingu por seu maior representante, tendo sido recebida na casa e família desse grande mestre (obrigada pela ponte, André Leite e Lucio Xavante), junto ao fotógrafo Renato Stockler no final de 2018. Fizemos uma matéria para o De Olho Nos Ruralistas sobre o que ele pensava do recém-empossado governo Bolsonaro. Acabo de ver que o portal republicou a matéria, acho que uma das últimas, se não a última, entrevista com esse ser humano encantado e inenarrável. Pense num acolhimento, numa simplicidade, numa generosidade. Aritana era um lord. Tanto que arriscou a própria vida ao manter a tradição e receber o corpo do irmão – também morto pela Covid – para ser enterrado na aldeia. Abraçou os familiares que acompanhavam o caixão, convidou-os a entrar e a cear em sua casa. E se contaminou.

Importante ressaltar que Aritana não foi só vítima dessa tragédia que assola o mundo. É também vítima de um governo assassino e genocida, que declaradamente anunciou guerra aos povos indígenas ainda na campanha eleitoral. E está cumprindo o que prometeu. O Xingu não recebeu ajuda do governo, contando efetivamente com o apoio das ONGs que as fake news tanto execram. Estou dilacerada, revoltada e sem esperança. Que grande perda para o Brasil, para o mundo. Aritana é uma enciclopédia que se vai. Sua sabedoria, sua representatividade, a importância desse homem no território, serão enterrados junto com ele. Gostaria de estar olhando a lua cheia na aldeia bem agora abraçando vocês, queridos Walako Yawalapiti, Tapi Yawalapiti, Xukuta Mehinako, Anna Terra Yawalapiti, Tumin Typro, Huka-huka Mapulu, Pajé Kamayura, Watatakalu Yawalapiti. Tristeza, respeito, silêncio na floresta.

Obrigada, grande mestre Aritana.

(É importante pontuar que, além da tragédia da Covid, Aritana foi mais uma vítima de um governo assassino e genocida, que nega ajuda e promove claramente o extermínio de nossos povos originários.)

 

Renato Soares, fotógrafo indigenista:

 

Minha homenagem ao querido Aritana Yawalapiti

Quando menino escutava a música de abertura de uma novela em preto e branco chamada “Aritana”. Achava fascinante os povos indígenas e sua luta para salvar a aldeia dos invasores. O tempo passou e um dia sentado na sala da casa de Orlando Villas Bôas, vi entrar pela porta o grande cacique Aritana. Olhou para mim e sorriu. Eu, falante que sou, emudeci de emoção e silenciei. Respirei fundo e fiz apenas uma pergunta: “Aritana, me leva para o Xingu?!”

Ele riu, pois achou engraçado do jeito que eu falei. Orlando deu uma gargalhada e disse, “Leva ele e não traga de volta não!”. Rimos e conversamos durante horas. Naquele dia nasceu nossa amizade. Aritana foi um homem especial e amado por toda sua gente. Neste momento os peixes no rio Xingu choram, as onças na mata choram, os passarinhos deixaram de voar neste dia triste. Triste ficamos aqui na terra dos viventes. Minhas lentes e minhas máquinas se trancaram na escuridão, pois sem a luz não há fotografia. Segue em paz sua jornada para o Ivati, encontrar-se com os seus e contar novas histórias.

 

Ulisses Capozzoli, jornalista:

 

A MORTE DE UM BRAVO

Aritana Yawalapiti, filho de Kanato, desde a manhã de hoje (5/8) não respira mais sobre a Terra, onde esteve ao longo dos últimos 71 anos. Líder mais respeitado do Alto Xingu, dividindo prestígio com o primo, Kotok, líder dos Kamaiurá, morreu vítima da epidemia de Covid-19 depois de uma longa e difícil batalha em que saiu derrotado. Aritana era uma espécie de esteio cultural de seu povo e, por extensão, de todo o Alto Xingu, ainda que sua atuação se estendesse por todo o parque, com seus 26.420 km², o dobro da Irlanda do Norte, mais de duas vezes e meia o Líbano e o triplo de Porto Rico.

A morte de Aritana, com sua liderança natural, firme e pacífica, identificada por Claudio Villas-Bôas (um dos célebres irmãos Villas-Bôas, os criadores do parque do Xingu para a proteção e sobrevivência de 16 etnias do Brasil Central) pode ser debitada à estúpida e criminosa recusa do governo em oferecer às populações indígenas, os primeiros donos do que agora é o território brasileiro, um mínimo de garantia sanitária contra a contaminação que varre o planeta como um demônio enlouquecido. As duas últimas semanas de vida Aritana passou confinado em uma unidade de terapia intensiva (UTI) num hospital de Goiânia. Até chegar lá, no entanto, despendeu a energia que teria feito a diferença, caso tivesse tido atendimento pronto, negado sob a forma de veto pelo presidente da república a um plano de atendimento às populações indígenas contra as ameaças da pandemia.

Há três semanas ele estava em sua aldeia, junto ao rio Kurisevo, um dos formadores do Xingu, quando teve uma forte crise respiratória, diagnosticada em seguida como Covid-19. Inicialmente ficou em Canarana, um dos portões de entrada da reserva indígena pelo Sul, mas sua saúde piorou sem que os médicos do parque tenham podido contar com socorro aéreo. Chegou a Goiânia ao final de uma viagem de dez horas a partir de Canarana, no interior de uma ambulância, respirando com ajuda precária de um cilindro de oxigênio. Quando deixou o Xingu, segundo o depoimento de uma sobrinha, Ana Paula Xavante, mais de 50% de seu pulmão já estava comprometido. A morte de Aritana, uma das memórias de seu povo, é mais uma nódoa na imagem internacional do Brasil, ao menos em relação às populações sensíveis à proteção que culturas mais ameaçadas devem merecer, antes que se transformem em imagem apagada do passado. Aritana falava, além da língua de seu povo, do tronco Aruak, outras quatro, como a dos seus parentes próximos, os Kamaiurá, do tronco Tupi-Guarani. Desde a infância foi preparado pelo pai, Kanato Tepori, para o resgate de sua gente, e essa é mais que figura de linguagem. Quando os Villas-Bôas chegaram ao Xingu, comandando a Expedição Roncador-Xingu (para desbravar o Brasil Central como uma das consequências geopolíticas da Segunda Guerra Mundial) os Yawalapiti estavam reduzidos a sete sobreviventes. Orlando Villas-Bôas, e isso ouvi muitas vezes da boca dele mesmo, estimulou casamentos com os kamaiurá e assim os Yawalapiti renasceram. Aritana passou cinco anos recluso em casa, recebendo ensinamentos do pai, tios e avós numa preparação para a tarefa que tinha pela frente. Sua gente havia minguado a partir dos anos 30 e só a miscigenação, que também incluiu os Kuikuro, do tronco Karib, permitiu essa dramática recuperação. Ouvi isso mais de uma vez de Aritana, em especial em um depoimento que me concedeu em 2011 para uma edição especial de “Scientific American Brasil” comemorativa dos 50 anos do parque.

O Brasil é cada vez mais associado à destruição, incêndio e morte no interior da maior floresta tropical da Terra, a Amazônia, majoritariamente concentrada aqui, e a morte de Aritana divulgada por agências internacionais de notícia já aparece nas páginas dos jornais e mídia social de todo o mundo. Há um fascínio e um profundo temor pelo que acontece por aqui, e isso não é mero acaso. O Brasil ainda tem sertanistas, gente especializada no contato com povos isolados, no sentido de estarem separados da sociedade exterior, que parte da mídia chama de “civilização”. Como se as culturas originais, que permitiram a sobrevivência de nações inteiras no interior da floresta, e ainda hoje asseguram isso a pequenos grupos, não tivessem consistência e valor legitimados. Certamente é o caso de acrescentar que os “povos isolados” não são gente sem qualquer contato com a sociedade exterior desde que Cabral desembarcou por aqui. Ao contrário. Eles tiveram e, traumatizados pelo que viram e sofreram, decidiram recuar e procurar abrigo na floresta profunda que agora é vítima do desmatamento, do fogo e de hordas de garimpeiros, também eles resultado de uma sociedade desigual e marginalizadora.

Aritana, por formação cultural e característica pessoal, era um líder conservador, no sentido literal da expressão. Na longa conversa de 2011, comprimida em duas páginas da edição especial de “Scientific American Brasil”, ele falou do temor pelo turismo desenfreado, invasão de pescadores, represas de menor e grande porte, como Belo Monte, além do encantamento de jovens indígenas por motocicletas, pela vida na cidade, que ele acreditava ameaçada por alcoolismo e drogas em geral, e também da dificuldade de seduzi-los para uma função estratégica da cultura indígena, a pajelança. Apenas essa última referência ao espaço ilimitado de reflexão e interpretação do que os “brancos” chamam de “realidade”. Aritana não disse, mas deixou claro, a diferença entre uma sociedade mágica, espiritualizada e ritualística e uma sociedade, digamos, cartesiana, mas esvaziada até mesmo dessa possibilidade, pelo consumismo, alienação e competição que um índio é incapaz de imaginar como estilo de vida.

A morte de Aritana, em uma idade em que poderia fazer muito por seu povo e por todo o Brasil, ainda que muitos sejam incapazes de perceber essa possibilidade, é tanto um lamento quanto um alerta. Mais um. Cada dia mais evidente e dramático em uma sociedade submetida a um brutal processo de aniquilação. Quem tiver interesse em conhecer os cenários possíveis por aqui, talvez possa encontrar resposta em um clássico: o livro “Enterrem meu coração na curva do rio”, de Dorris Alexander Brown, mais conhecido como Dee Brown, escritor e historiador sobre a sanguinária aniquilação de populações indígenas nos Estados Unidos, mostrada em faroestes vivenciados por atores reacionários como John Wayne. Ah! Sim. Essa é a fonte da expressão “brancos” para se referir a não indígenas. Injustificada para um país com perfil como o do Brasil. Aritana, o corajoso e sábio conciliador, no sentido mais nobre dessa expressão, fará falta imensa. E ela já começa a se fazer sentir.

 

Instituto Raoni:

 

O Instituto Raoni manifesta todo pesar e consternação pelo falecimento do cacique Aritana Yawalapiti, 71 anos, ocorrido por complicações de Covid-19, na madrugada dessa quarta-feira (05), no hospital São Francisco, em Goiânia, onde esteve internado desde o último dia 22, na Unidade de Terapia Intensiva, respirando com ajuda de aparelhos.

Filho de Paru Yawalapiti e Tepori Kamaiurá, Aritana foi o primeiro filho do casal. Ainda criança, na década de 1950, conheceu os irmãos Cláudio Villas-Bôas e Orlando Villas-Bôas.

Aritana acompanhou de perto seu pai Paru Yawalapiti e seu tio cacique Raoni na criação oficial do então Parque Indígena do Xingu, em 1961, uma área de quase 2,8 milhões de hectares (divididos entre Alto, Baixo e Médio Xingu) assegurando a 16 etnias o direito de viver em suas terras ancestrais.

Aos 19 anos de idade, Aritana recebeu a nobre missão de se tornar cacique; com isso, passou cerca de 5 anos em reclusão, recebendo ensinamentos e orientações que o preparariam para essa nova etapa de sua vida, de liderança e proteção de seu povo. Passou a atuar na defesa dos direitos dos indígenas, especialmente no que se refere à demarcação de terras, preservação ambiental, saúde e educação.

Falante de várias línguas indígenas, sábio, respeitoso e por conduzir com maestria o diálogo entre os povos indígenas e a sociedade não-indígena, cacique Aritana por inúmeras vezes fez-se representante de diversas outras etnias, especialmente as que habitam a Terra Indígena do Xingu (TIX).

Por seu respeitoso legado, o Instituto Raoni, expressa suas sinceras condolências à família por essa irreparável perda, salientando que seu exemplo de dedicação e esforço ficará como lembrança para todos, hoje e sempre.

Siga em paz, nobre cacique.

FONTES

Foto em Destaque: 

Fotos da Galeria: Milton Guran; Adelino Mendez(1); Renato Soares(1); Renato Soares(2); Adelino Mendez(2); Adelino Mendez(3); Kakatsa Kamaiurá; Adelino Mendez(4); Adelino Mendez(5); Fernando Baggio; Adelino Mendez(6); Kamikia Kisedje; Adelino Mendez(7); Mídia Ninja (Reprodução// via ISA-SocioAmbiental);
Adelino Mendez(8); Adelino Mendez(9); Adelino Mendez(10); Ademir Rodrigues (Reprodução// Arquivo Agosto/2020, Carta Capital); Antonio Carlos Ferreira Banavita (1); Antonio Carlos Ferreira Banavita (2); Adelino Mendez; Antonio Carlos Ferreira Banavita (3); Renato Stockler(1); Renato Stockler(2); Renato Stockler(3); Renato Stockler(4); Renato Stockler(5).


Amazônia Real
https://amazoniareal.com.br/covid-19-leva-aritana-yawalapiti-o-diplomata-do-alto-xingu/ 

Tribune de Géneve
https://www.tdg.ch/le-grand-chef-indigene-aritana-est-mort-du-covid-439778961794?utm_source=dlvr.it&utm_medium=twitter

Reuters
https://www.reuters.com/article/us-health-coronavirus-brazil-aritana/brazil-indigenous-leader-aritana-dead-from-covid-19-idUSKCN2512T4

Instituto Raoni
https://www.facebook.com/institutoraoni/posts/4498115016880492

Conselho Indigenista Missionário (CIMI-MT)
https://cimi.org.br/2020/08/nota-de-pesar-do-cimi-regional-mato-grosso-pela-morte-de-aritana-yawalapiti/

Hugo Meireles Heringer (O Vermelho)
https://vermelho.org.br/2020/08/05/aritana-o-grande-cacique/

Survival International – Brasil:
https://www.facebook.com/SurvivalInternationalBrasil/photos/a.272869616152749/2853503524755999/

Ana Terra Yawalapiti
https://www.facebook.com/photo?fbid=1166897943692776&set=a.111641509218430

Adelino Mendez
https://www.facebook.com/adelinodelucena.mendes/posts/3136016843181819

https://www.facebook.com/photo?fbid=3138195729630597&set=a.108105445972989

https://www.facebook.com/photo/?fbid=3138493229600847&set=a.108105445972989

https://cutt.ly/HdFsAAr

Clarissa Beretz
https://www.facebook.com/clarissa.beretz/posts/10160118083433065

Felipe Milanez, em Carta Capital:
https://www.cartacapital.com.br/opiniao/morreu-aritana-yawalapiti-silencio-choro-e-o-luto-com-o-xingu/amp/?__twitter_impression=true&fbclid=IwAR3dMrshD6TaBAMOxASni9JvFrvaEG1cZf5swHFtELU0RE7_VHVaoobmpH8

Instituto SocioAmbiental (ISA)
https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/aritana-yawalapiti-grande-lutador-e-articulador-de-mundos?utm_source=isa&utm_medium=&utm_campaign=&fbclid=IwAR3lfTRz0cAAqCq07z8AMef72Pem9k9sCYRZqg9c9FzEylzC-Yb_pMHiT8k

Fernando Baggio
https://www.facebook.com/photo?fbid=10205551917270558&set=a.4082789681359

Renato Soares
https://www.facebook.com/photo/?fbid=10224084745446455&set=a.1501878106958

Ulisses Capozzoli & Renato Soares (fotografia)
https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=2620822008135276&id=100006225071086

Kamikia Kisedje
https://cutt.ly/6dFsYPe

Kakatsa Kamaiurá
https://www.facebook.com/photo/?fbid=10220835999824571&set=p.10220835999824571

Mônica Nunes
https://www.facebook.com/photo/?fbid=10159498154329368&set=a.405358229367

Milton Guran
https://www.facebook.com/photo/?fbid=10216680183509801&set=a.3732585646019

Benedito Reginaldo Filho, 94

Terena

Seu Benedito Reginaldo Filho é mais um Terena vítima fatal da Covid-19. Seu filho Ageu Reginaldo relata que o pai esteve internado por dois dias no Hospital Regional de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Com a saúde debilitada pela infecção pelo novo coronavírus, não resistiu e faleceu aos 94 anos, no dia 3 de agosto de 2020. Seu Benedito Reginaldo nasceu em 1926 e era viúvo há pelo menos três décadas. Sua esposa deixou seis filhos desse matrimônio. Dos seis – quatro homens e duas mulheres –, quatro já haviam falecido ao longo do tempo, em diferentes momentos, após a partida da mãe.

Foram os dois filhos restantes, Ageu Reginaldo e Arão Reginaldo, que receberam a triste notícia da perda do pai para a Covid-19. Segundo Ageu, seu Benedito foi encaminhado para o hospital e, apesar de a internação não ter envolvido tantas burocracias, houve um grande descaso por parte da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) na prestação de apoio e auxílio ao povo Terena neste momento tão complexo e delicado da pandemia.

Seu Benedito foi um grande líder da família e um dos protagonistas na aceitação da evangelização e da implantação de igrejas evangélicas entre o povo Terena, motivo pelo qual enfrentou oposições internas. Promoveu a Igreja Evangélica da Aldeia Água Azul, fundada em 1928, primeira igreja na Terra Indígena Buriti. Essa TI está em uma região marcada por intensos conflitos fundiários com fazendeiros; no centro das disputas entre povos indígenas e ruralistas no Mato Grosso do Sul. O Estado brasileiro tem sido moroso na conclusão de seu reconhecimento formal: os conflitos chegaram ao ápice em 2013, com o assassinato de uma importante liderança dos Terena pela Polícia Federal, durante a reintegração de posse aos indígenas da fazenda Buriti. Já se vai uma década desde a publicação da sua Portaria Declaratória pelo Ministério da Justiça, reconhecendo a tradicionalidade da área, e dezesseis anos desde o relatório de identificação da FUNAI. A TI Buriti ainda não foi homologada.

Graziele Acçolini, etnóloga especialista na temática do povo Terena, registrou em um artigo que as religiões cristãs são predominantes na região. Sobretudo a religião protestante, em vertente pentecostal, possui importância notável no universo simbólico e religioso dos Terena, e se tornou elemento integrante daquela sociedade.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE), o estado do Mato Grosso do Sul abriga a segunda maior população indígenas do país. O site do Instituto Sociambiental (ISA) afirma que a população Terena é bastante numerosa:

“Com uma população estimada em 16 mil pessoas em 2001, os Terena, povo de língua Aruák, vivem atualmente em um território descontínuo, fragmentado em pequenas ‘ilhas’ cercadas por fazendas e espalhadas por sete municípios sul-matogrossenses: Miranda, Aquidauana, Anastácio, Dois Irmãos do Buriti, Sidrolândia, Nioaque e Rochedo. Também há famílias terena vivendo em Porto Murtinho (na TI Kadiweu), Dourados (TI Guarani) e no estado de São Paulo (TI Araribá). […] Os Terena, por contarem com uma população bastante numerosa e manterem um contato intenso com a população regional, são o povo indígena cuja presença no estado se revela de forma mais explícita, seja através das mulheres vendedoras nas ruas de Campo Grande ou das legiões de cortadores de cana-de-açúcar que periodicamente se deslocam às destilarias para changa, o trabalho temporário nas fazendas e usinas de açúcar e álcool.”

 

Ageu Reginaldo registrou um histórico em memória do legado de seu pai:

 

Queria fazer um pequeno relato da história do meu pai, Benedito Reginaldo Filho. Bom, esse nome “Reginaldo Filho”, foi uma herança do saudoso vovô Benedito Reginaldo, um tronco da família Reginaldo, que é uma família muito grande aqui na minha região. O meu pai desde pequeno, desde a infância, conheceu a Sagrada Escritura através do meu saudoso avô. De lá pra cá, meu pai veio seguindo esse caminho como cristão. Sempre foi uma pessoa muito humilde e simples. Não teve educação formal, mas sabia assinar o próprio nome.

Desde cedo percebia no meu pai um homem perseverante, que acreditava. Cheio de muita fé. Todas as coisas que ele fazia eram fundamentadas na fé em Deus: “Vamos orar?”, essa era uma frase dele. A oração era como chave da comunidade, como base de viver em sociedade. Ele sempre demonstrou ser um exemplo de vida, tanto na vida social como na espiritual. Um aprendizado que meu pai me deixou é que a nossa vida tem que ser valorizada. A nossa vida de luta. Meu pai foi um homem batalhador na vida espiritual e também na comunidade.

Mesmo já bem idoso, aos 94 anos, já fragilizado pela idade, demonstrava muita firmeza, fé. Acreditava em Deus conosco. Estava sempre nos motivando e não deixando a gente cair em desânimo. E são palavras que ficam na nossa memória. Sempre me espelhava nele, como um mestre, um companheiro, um amigo, um guerreiro… como o pai que era. Uma enciclopédia que foi embora de mim, de nossa família e comunidade. Um livro vivo da família.

Fazer homenagem pra ele é lembrar que meu pai foi esse fundador do evangelho, fundamentado também no trabalho. Foi uma grande perda pro povo Terena aqui da região. Um grande líder, um grande guerreiro. E o que posso fazer agora é cumprir o papel de orientar os meus filhos, as gerações que vêm aí, que são os netos, o fruto da geração de meu pai, seu Benedito Reginaldo Filho.

Que todos os povos indígenas, não só os Terena, os indígenas do nosso país, sejam valorizados através das memórias que construímos e guardamos dos nossos pais. Esse é um importante trabalho a ser feito para valorização daquilo que guardamos dos nossos ancestrais.

Nas redes sociais, Ageu Reginaldo declarou sobre a perda do pai:

Com muita dor no coração, meu herói, meu pai. Meu companheiro, meu mestre na vida secular e, principalmente, na vida espiritual. Partiu deste mundo. Descansa em paz, meu herói.

“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”.

Quero agradecer a todos os irmãos e amigos que me deram palavras de conforto neste momento de dor – estou consolado pelo Espírito Santo – pois sei que muitos irmãos estão orando a favor da minha família. Para o meu pai, Benedito Reginaldo filho, que descansou e está no lar eterno. Que Deus possa abençoar a cada um de vocês meus irmãos e amigos. ITUKO’OVITI huvo’oxovi.

 

 Fernando Souza, sobrinho de seu Benedito, sobre a perda:

 

Meus sentimentos a toda a sua família, Ageu. O tio cumpriu a sua missão nesta terra. Sei que a saudade será muita, que o Espírito Santo Consolador seja contigo e os demais irmãos e parentes.

 

Reginaldo Terena, neto de seu Benedito, declarou:

 

Mais uma vítima da Covid. Descanse em paz, vô Bilu. Benedito Reginaldo, grande servo de Deus. “Combati um bom combati acabei a carreira guardei a fé.”

Família Reginaldo, em luto.

 

Lisio, amigo da família, registrou:


Ageu e Arão, somente Itukooviti pode consolá-los neste momento de dor. Meus sentimentos.

 

Elis Amaral, neta de seu Benedito, declarou:


Nosso vovô, Benedito Reginaldo, terminou a carreira aqui na terra e agora descansa nos braços do Pai! Nosso abraço carinhoso ao Ageu Reginaldo, Arão Reginaldo e toda a família. Deus está no controle e tem o conforto nesse momento de dor.

Liderança indígena denuncia o descaso do Governo Federal com a saúde indígena entre os povos Terena (MS).

FONTES

Foto em Destaque: Acervo Pessoal da família de Benedito Reginaldo, cedido por Ageu Reginaldo.

Fotos na Galeria: Acervo Pessoal da família de Benedito Reginaldo, cedido por Ageu Reginaldo.

 

Acçolini, Graziele. Xamanismo E Protestantismo Entre Os Terena: Contemporaneidades”.In: Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 6, n. 1, p. 24-47, jan./jun. 2012. Disponível em:
https://seer.ufrgs.br/EspacoAmerindio/article/view/26916/18779

ISA- Instituto Socioambiental. Povos Indígenas do Brasil (PIB).
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Terena, acesso em 05/08/2020.

BRASIL, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os indígenas no censo demográfico 2010. Primeiras considerações com base no quesito cor ou raça. Disponível em https://indigenas.ibge.gov.br/images/indigenas/estudos/indigena_censo2010.pdf     acessado em 05/08/2020 

Reportagem de Racismo Ambiental. STJ mantém terra indígena Buriti, onde foi morto Oziel Terena, anulada por marco temporal.

https://racismoambiental.net.br/2018/03/13/stj-mantem-terra-indigena-buriti-onde-foi-morto-oziel-terena-anulada-por-marco-temporal/ acessado em 05/08/2020.

Evaristo Garcete, 59

Guarani-Kaiowá

Evaristo Garcete, 59 anos, é o primeiro Guarani vítima da Covid-19 na região da cidade de Dourados, estado do Mato Grosso do Sul. Ele faleceu dia 18 de junho de 2020, no Hospital Evangélico de Dourados, onde estava internado há 11 dias. Havia sido transferido do Hospital Porta da Esperança, mantido pela Missão Evangélica Caiuá na Reserva de Dourados. Ali esteve internado por uma semana, desde o dia 31 de maio, com pneumonia provocada pela Covid-19. Sua morte foi anunciada na imprensa, nos sítios eletrônicos G1 e do jornal local Midiamax.

Seu Evaristo morava na aldeia Bororó, na Reserva de Dourados, onde convivem hoje cerca de 17 mil indígenas dos povos Guarani, Kaiowá e Terena. Ele era pai de cinco filhos e trabalhava há algum tempo como servente-pedreiro na construção de rodovias. Seu sustento financeiro anterior havia sido no corte de cana-de-açúcar para usinas alcooleiras da região.

Na região sul do Mato Grosso do Sul a maior parte dos territórios indígenas foi demarcada sob a nomenclatura de “reserva” entre 1915 e 1930, nos primórdios das ações integracionistas dos povos originários à sociedade envolvente. Na época, essas ações foram promovidas pelo extinto Serviço de Proteção aos Índios – SPI (existente de 1910 a 1967). Posteriormente, as demarcações ficaram nas mãos da FUNAI (1969 em diante). Indígenas foram expulsos de suas terras tradicionais e deslocados para as reservas pelo estado, que as titulou em nome de particulares donos das primeiras empresas agropecuárias da região. Hoje, boa parte das aldeias e terras ocupadas pelos Kaiowá, Guarani e Terena encontram-se superpovoadas e diante da destruição provocada pelas intensivas atividades do agronegócio (soja, milho, gado e outras). O corte da cana-de-açúcar é um braço forte da agroindústria no estado, atividade que Evaristo Garcete exerceu.

A história de Evaristo Garcete traz também outro nome simbólico e de grande importância para a memória da família: ele era sobrinho de Marçal de Souza Tupã. O antropólogo Felipe Mattos Johnson registrou uma nota sobre Marçal em sua dissertação de mestrado:

“Guerreiro Guarani histórico, nasceu em 24 de dezembro de 1920. Lutou em defesa de seu povo, denunciando o agronegócio justamente em fase de expansão na década de 1970. Foi combatente na retomada de Pirakuá, município de Bela Vista, já na década de 1980. Foi assassinado brutalmente em 1983, a mando de fazendeiros da região.” (JOHNSON, 2019, p.89)

Everton Garcia Garcete, filho de seu Evaristo, foi quem realizou um ritual funerário quase solitário, em consequência das condições sanitárias durante a pandemia de Covid-19. Segundo a reportagem de Marcos Morandi no portal Midiamax, Everton “não tirava os olhos da fita métrica usada, para saber se ainda não tinha alcançado os sete palmos; fazia algumas pausas para limpar o suor do rosto e desenterrar algumas lembranças de alguém que sempre foi um trabalhador e morreu sem conseguir se aposentar”. A seguir republicamos outro trecho da mesma reportagem, no qual Everton manifestou o luto em forma de desabafo:

Ele ajudou no progresso do Brasil, trabalhando em usinas de álcool, em rodovias, e o que ele ganhou com isso? Só o seu minguado salário. E os seus direitos como ser humano? Como cidadão? Como brasileiro? Como indígena? Porque ele era indígena nato, guarani puro. Cadê? (…) Muito do que esse velho índio me ensinou, com certeza aprendeu com seu tio Marçal, que sempre foi um defensor das causas indígenas, mais que os jovens aqui da Reserva. Às vezes [eles, os jovens], nunca ouviram falar.

Emocionado, o jovem guarani discorreu sobre a importância de algumas pessoas da família. Cavando a sepultura para o corpo do pai, relembrou histórias de seu tio (tio-avô) Marçal de Sousa. O descaso estatal com os Guarani e Kaiowá se revela no total descuido com os seus rituais funerários, e na precariedade da saúde em Terras Indígenas superpopulosas como a Reserva de Dourados, onde a concentração demográfica é 50 vezes maior do que a média estadual. Os modos tradicionais de ocupação territorial indígena envolvem áreas de maior extensão; os Guarani e Kaiowa hoje dispõem de menos que o módulo rural mínimo necessário para a sobrevivência de agricultores familiares. O estado do Mato Grosso do Sul abriga a segunda maior população indígena do Brasil (só fica atrás do Amazonas), confinada em pequenos territórios, nos quais o crescimento da população supera a média nacional. Muitas vezes o racismo estrutural aparece sob o aspecto velado da ótica do “progresso”, como narra Everton ao mencionar as contribuições realizadas pelo pai, seja na construção de rodovias ou no corte de cana para a agroindústria alcooleira.

Na cidade de Dourados uma cena bastante comum é a presença indígena. Circulam diariamente por ali muitos moradores das aldeias da Reserva de Dourados (Jaguapiru e Bororó), que vão para a cidade trabalhar ou resolver outras pendências. Tanto na região central de Dourados como em bairros da periferia é possível perceber a circulação de indígenas em carroças, bicicletas ou mesmo a pé: famílias inteiras (inclusive idosos, mulheres e crianças) se deslocam pedindo pão ou doações de outros alimentos de casa em casa. Indígenas são contratados como mão de obra sazonal para prestar serviços na agroindústria, seja no corte da cana-de-açúcar, em plantações de soja ou em frigoríficos.

O sítio eletrônico “Povos Indígenas do Brasil”, do Instituto Socioambiental – ISA, registra: “Com a proximidade do contato e as variadas situações de exigüidade de terras disponíveis face à superpopulação de algumas áreas, os Ñandeva e Kaiowa são obrigados a trabalhar no mercado regional. Se até alguns anos atrás havia demanda para o trabalho dos índios nas fazendas que se estavam formando, hoje em dia esta atividade arrefeceu sobremaneira, na medida em que as fazendas foram implantadas e hoje utilizam mecanização no plantio ou, de outro lado, os espaços foram transformados em terras que têm diminuído a oferta de trabalho em decorrência da mecanização, o que ocorre principalmente no MS, onde o problema é mais grave. Ultimamente os Kaiowa e os Ñandeva têm sido contratados por usinas de álcool distantes de suas comunidades, onde os homens permanecem por semanas trabalhando longe de suas famílias”.

No portal do De Olho Nos Ruralistas ficamos sabendo que a entrada do novo Coronavírus na Reserva de Dourados ocorreu no mês anterior, entre os dias 10 e 11 de maio de 2020, pela contaminação de trabalhadores da multinacional JBS. Porém, a empresa soltou uma nota apenas em 14 de maio, contando sobre uma mulher indígenas de 35 anos que havia sido contaminada em suas dependências. Foi através do contágio de trabalhadores indígenas contratados por um frigorífico da JBS que a Covid-19 adentrou as aldeias Jaguapiru e Bororó. Na atual conjuntura social, sanitária e econômica advinda da pandemia da Covid-19 são incontáveis as dificuldades e as complexidades que atravessam o cotidiano dos Kaiowá e Guarani (e também dos Terena). As notícias tristes aumentam na medida em que a doença se espalha por várias aldeias e Terras Indígenas da região sul do Mato Grosso do Sul.

 

Nota de Pesar das lideranças dos grandes Conselhos Tradicionais Guarani e Kaiowá – Aty Guasu; Kuñangue Aty Guasu; Retomada Aty Jovem; Aty Jeroky Guasu.

 

Viemos a público através desta carta informar e lamentar o falecimento dos primeiros indígenas Guarani e Kaiowá, vítimas de COVID-19 na aldeia de Dourados-MS.

Evaristo Garcete, 59 anos, estava internado desde o dia 7 de junho, e sua morte pela COVID-19 foi confirmada, nesta sexta-feira, 19 de junho de 2020.

VIDAS INDÍGENAS IMPORTAM

A APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), confirma [nesta data, 19/06/2020] 301 óbitos por COVID-19 e pelo menos 6.352 casos confirmados da doença entre a população indígena no país.

A pandemia de COVID-19 que assola o país, atinge o nosso povo Guarani e Kaiowá de forma ainda mais cruel. Somos a segunda maior população indígena do Brasil, e nos encontramos em um contexto histórico de falta de terra, de saneamento básico, alimentação adequada, contaminação de agrotóxicos e ataques de pistoleiros.

A Reserva Indígena de Dourados, a mais populosa do estado, chega a 122 casos positivos de corona vírus em junho de 2020.

Por isso, reforçamos a importância da formação e manutenção de barreiras sanitárias no território Guarani e Kaiowá. Toda ajuda humanitária às comunidades indígenas é bem-vinda e necessária neste momento tão difícil que estamos passando.

Somado a isso, a crise da Covid-19 também está fomentando o racismo, que ganha forças contra a população indígena Guarani e Kaiowá, que está sendo acusada indevidamente de ser disseminadora da doença na região, sendo que na verdade o rastreamento de contágio dos primeiros casos positivos na aldeia de Dourado indicam que estas pessoas foram contaminadas fora da aldeia trabalhando em um grande frigorífico da região. […]

Essa é uma doença grave, não é só uma gripezinha, e centenas de vidas indígenas já foram dizimadas com a chegada do coronavírus, e a situação é agravada devido às políticas econômicas e sociais do atual governo.

Deixamos aqui a nossa solidariedade à família Guarani e Kaiowá em luto e seguimos construindo estratégias de combate para que o nosso povo sobreviva a essa pandemia.

Agradecemos a todos(as) que colaboraram e seguem colaborando com a nossa batalha, e cumprimentamos a todos os profissionais em luta e a todas as famílias em luto. Convocamos o povo a vir lutar conosco!

Tekohas Guarani e Kaiowá, 20 de Junho de 2020.

FONTES

Foto em Destaque: “Futurismo Indígena”. Arte e colagem feita pelo artista Kadu Xukuru (Instagram: @kaduxukuru)

Fotos da Galeria: “Futurismo Indígena”. Arte e colagem feita pelo artista Kadu Xukuru; Reprodução// Enterro de Seu Evaristo por MídiaMax (Marcos Morandi).

Conselho Indigenista Missionário – Regional Mato Grosso do Sul (CIMI – MS)
https://cimi.org.br/2020/05/nota-do-cimi-ms-sobre-pandemia-covid-19-entre-kaiowa-guarani/

De Olho Nos Ruralistas
https://deolhonosruralistas.com.br/2020/05/19/contaminacao-em-aldeia-em-dourados-ms-comecou-na-fabrica-da-jbs-diz-cacique/

https://deolhonosruralistas.com.br/2020/06/18/sem-agua-e-saneamento-indigenas-de-dourados-ms-vivem-o-apartheid-da-covid/

JOHNSON, Felipe Mattos. Pyahu kuera: uma etnografia da resistência jovem guarani e kaiowá no Mato Grosso do Sul. 2019. 185 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade Federal da Grande Dourados, Dourados, MS, 2019. Disponível em: http://repositorio.ufgd.edu.br/jspui/handle/prefix/1590

MidiaMax
https://youtu.be/GmH57W4dUgY 

Kuñangue Aty Guasu
https://www.facebook.com/kunangueatyguasu/photos/a.471495453223126/1176455092727155/ 

G1 
https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/resultado-das-apuracoes/pedreiro-de-59-anos-e-primeiro-indigena-e-morrer-de-covid-19-em-ms-total-de-vitimas-da-doenca-chega-a-40.ghtml

Brasil de Fato
https://www.brasildefato.com.br/2020/06/21/regiao-onde-morreu-primeiro-indigena-no-ms-tem-um-medico-para-atender-17-mil-pessoas 

https://www.brasildefato.com.br/2020/06/01/em-17-dias-numero-de-indigenas-com-covid-19-cresceu-7-400-no-mato-grosso-do-sul